Os sonhos não envelhecem

Eu na livraria procurando um presente de natal para a mineira mais charmosa que já pisou neste planeta.

De repente um livro pula na minha frente: Os sonhos não envelhecem: histórias do Clube da Esquina, de Márcio Borges, na 7ª edição, que a primeira foi de 1993.

Um livro que eu já devia ter lido há muito tempo, professor de história da música brasileira que sou. Mais que isso – um cara que comprei muitos discos de Milton em sebos de Curitiba na minha adolescência no início dos anos 1990. Discos que foram meus companheiros de alegria e de fossa – as músicas que mais me fizeram rir e chorar nesta vida. Se eu tivesse que escolher de sopetão o compositor que mais significa para mim, ou que compôs mais músicas significativas pra mim – não haveria como titubear: Milton.

Por milhares de motivos.

Entre outros, porque eu sou um curitibano da gema, de 4ª geração, mas com fortes ligações nas Minas Gerais. Um lugar que visito sempre, e que sempre me traz muitas lembranças e emoções.

E nada é mais Minas Gerais que Milton Nascimento e Márcio Borges.

Mas o fato é que eu não tinha lido o livro ainda. E até fiquei com medo de comprar pra Maris e ela achar que era um presente mais pra mim que qualquer coisa. Comprei outro presente, e levei o livro pra eu ler mesmo.

Ler não, sorver.

Memórias altamente bem escritas pelo primeiro parceiro e principal estimulador da carreira de compositor de Milton Nascimento.

Memórias honestas, profundas – muito mais que uma história de amizade e parceria musical. Uma história da juventude brasileira tolhida pelo Regime Militar, mas que não deixou de sonhar, alimentada pelas bebedeiras, pelo cinema autoral, pelo jazz, pela Bossa Nova – tudo numa Belo Horizonte mística, de edifícios próximos da Praça Sete, capazes de congregar nos anos 1960 o maior número de jovens geniais que jamais conviveram num espaço tão próximo.

Essa parte memórias de adolescente bicho-grilo cinéfilo músico popular esquerdoso me levou direto às minhas lembranças de juventude. As semelhanças com Encontro marcado, de Fernando Sabino, ou Trapo, de Cristóvão Tezza – os romances mais familiares pra mim, com certeza. Li tudo como se estivesse tomando uma cerveja com o Allan Oliveira, outro ponto forte de ligação com Minas Gerais, e certamente o amigo com quem tive mais cumplicidade juvenil e em assuntos de cinema música e literatura.

Para além disso, a parte técnica do livro, para um historiador, músico e professor de história da música brasileira:

Como todas as memórias, uma visão bem pessoal, imprecisa. Só que melhor do que a maioria das memórias exatamente por que se assumiu desde o início como claramente contida dentro destas limitações: Márcio Borges nunca pretende escrever livro de história, mas escreve as memórias como se estivesse fazendo literatura de ficção. E nós sabemos que nada é mais próximo da realidade que a literatura de ficção, e por isso mesmo estas memórias são tão boas.

Para mim saltaram aos olhos as informações quentes sobre as influências musicais sentidas por uma turma incrível de músicos belorizontinos (ou residentes em Beagá, entre eles Wagner Tiso, Toninho Horta, Nivaldo Ornellas, Pascoal Meirelles, além, claro do próprio Milton) – todos com muita estrada como músicos de jazz e de bandas de baile, uma história anônima de música popular que ninguém se preocupa em contar. Aliás, tenho que dizer que tem um pessoal muito bom investigando essa música popular não registrada em fonograma na Curitiba de antanho, como a Marilia Giller e o Tiago Portella – e fiquei pensando como seria bom se os pesquisadores mineiros se sentissem fascinados por este tema.

Melhor ainda do que essa trilha da formação musical nos standarts jazzísticos e na Bossa Nova e na música interiorana e na música latina, são as informações sobre as referências cinematográficas, sobre a audição dos Beatles, sobre a maneira como um Márcio Borges percebeu os Fetivais da Canção da Record e da Globo ou o Tropicalismo.

Maior ainda é o interesse por um aspecto central do livro: as minuciosas descrições do processo criativo que envolveu Milton, Márcio e Lô Borges, Fernando Brant, Nelson Ângelo, Tavinho Moura, Beto Gueedes, Ronaldo Bastos, Tonhinho Horta, e outros que agora não me lembro.

Como surgia a melodia, quem colocava qual parte da letra. Letra primeiro, música primeiro, as duas ao mesmo tempo. Tim-tim por tim-tim, um processo criativo que é um dos grandes mistérios para uma musicologia da música popular, que tem que lidar com essa coisa da composição como um processo coletivo e não exatamente autoral na acepção erudita do termo. Canções que levaram décadas para ficar prontas, outras que surgiram em meia hora. Umas que brotaram do recôndido do coração, outras de concursos mequetrefes. Outras improvisadas na hora no estúdio de gravação.

O livro é do Márcio Borges, é a visão dele de tudo. Mas principalmente é o livro de um dos amigos e parceiros mais próximos e antigos de Milton Nascimento, com a capacidade incrível de explicar por que o cantor de Três Pontas é simplesmente um dos maiores gênios da música universal.

Author: andreegg

Músico, historiador, professor.

3 Comments

  1. Esse livro é sensacional!
    Minas realmente é o máximo – os mineiros (Beto Guedes, Flávio Venturini, Lô Borges e sobretudo Milton – tudo bem ele nasceu no Rio, mas é mineioro) foram os primeiros brasileiros a fazer a minha cabeça, quando eu tin ha doze pra treze anos – antes só ouvia rock.
    Recomendo também o livro Travessia, da Maria Dolores (uma biografia do Milton), que também é bem bacana.
    O Milton foi o objeto da primeira postagem do Jazz + Bossa. Dá uma passada lá, ok? ( http://ericocordeiro.blogspot.com/search/label/Milton%20Nascimento )
    Um feliz Ano Novo!
    … porque se chamava moço…

  2. RAPAZ, ESTIVE COM O MARCINHO BORGES QUANDO ELE FEZ UMA NOITE DE AUTOGRAFOS E UMA PALESTRA NA CIDADE MINEIRA DE AIURUOCA-MG, NOS CONTRAFORTES DA SERRA DA MANTIQUEIRA – SUL DE MINAS – TERRA DOS MELHORES QUEIJOS (EM ESPECIAL O PARMEZÃO) E, ONTEM MESMO ESTAVA RELENDO ESTE LIVRO MEMORÁVEL SOBRE A HISTÓRIA DO CLUBE DA ESQUINA. QUE COINCIDÊNCIA BOA.

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