Pesquisa Vox Populi de julho – intenção de voto para presidente

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A pesquisa Vox Populi foi realizada entre os dias 17 e 20 de julho, mas só semana passada eles divulgaram o relatório no site. Nunca é tarde para fazer análises, ainda mais se for por um ângulo diferente das que já apareceram por aí.

O relatório completo da pesquisa está aqui.

Pelo que vi na imprensa, o pessoal comentou mais o resultado da pesquisa estimulada, ou seja, aquela em que o eleitor escolhe o candidato em uma lista apresentada pelo pesquisador. É o que está a partir da página 17 do relatório. Deu 41% para Dilma, 33% para Serra, 8% para Marina, conforme eu já tinha repercutido.

Mas é sempre melhor analisar os dados da pesquisa espontânea, aquela em que o eleitor responde à pergunta: “Se a eleição fosse hoje, em que você votaria?” – ou seja, o eleitor indica o que tem na memória, sem auxílio de lista. É o que está na página 14 do relatório.

É o tipo de pesquisa que indica o eleitor mais consolidado. E aliás, é a única pesquisa do Vox Populi que permite comparação com meses anteriores, porque a estimulada foi a primeira feita após o registro das candidaturas, e a lista de candidatos mudou um pouco.

O gráfico acima foi feito por mim, com os dados desta planilha. Ele é baseado na pesquisa espontânea, mas computando apenas os votos declarados para os três principais candidatos. Na planilha linkada acima tem também um gráfico que inclui os votos em “outros”, basicamente em Lula, que não é candidato, mas continua sendo apontado na espontânea.

O gráfico demonstra que entre janeiro e maio Dilma se distanciou de Serra, com um ligeiro crescimento dela, e uma ligeira queda dele. De maio a julho, queda quase imperceptível de Dilma, queda ligeiramente mais acentuada de Serra e subida de Marina proporcional à queda de ambos.

Tudo isso numa fase antes do início do horário eleitoral. Espera-se alguma mudança nas primeiras semanas, quando o eleitor assiste alguns programas. Nova acomodação nas tendências, e novas mudanças nas semanas finais antes do pleito. Pelo menos tem sido assim em outras eleições. O gráfico acima mostra a seguinte tendência: Dilma está ganhando no primeiro turno, mas uma ligeira subida de Marina deve provocar um segundo turno.

Os detalhes que mais chamam a atenção no relatório, como pontos fora da curva:

O desempenho de Marina é o dobro de sua média no eleitorado com nível educacional secundário ou superior, no eleitorado das capitais, e no eleitorado com renda mais alta. Este é o eleitor mais bem informado: segundo o próprio relatório estes são os grupos que tem índices mais altos de conhecimento dos candidatos.

Isso indica uma tendência futura de crescimento de Marina, por que ela está bem posicionada no eleitorado mais bem informado, enquanto ela ainda é a menos conhecida entre os candidatos. O Vox Populi avaliou este quesito, e o resultado foi que Serra é conhecido de 73% do eleitorado, Dilma de 63% e Marina de apenas 40%.  A pesquisa também indica que 82% do eleitorado já identifica Dilma como a candidata apoiada pelo presidente Lula.

As perspectivas são de que agora Dilma anda com as próprias pernas. Não é mais desconhecida do eleitor, e já está suficientemente identificada como a candidata de Lula. Agora precisa apresentar propostas, ir bem nos debates, e ter bom desempenho na campanha casada com as eleições regionais. Ela está bem servida em todos estes critérios, e é de se esperar que ainda cresça mais um pouco.

Serra partiu de um patamar inicial muito alto, como nome mais conhecido. Enfrenta grandes dificuldades na articulação de sua campanha. Para ele o melhor seria que nada mudasse, pois qualquer movimento o prejudica.

Marina é candidata por um partido pequeno e pouco estruturado, mas tem um ótimo staff, boas propostas. Tem história, e uma trajetória política consistente. Vai ficar mais conhecida no decorrer da campanha, pode crescer e provocar um segundo turno.

Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, é um candidato ainda pouco conhecido do eleitor, especialmente por que é totalmente boicotado pela mídia, ao contrário de Marina, que é vista com muita simpatia. Acredito que ele tem potencial de crescimento, principalmente por que o PSOL é um partido razoavelmente forte. Especialmente nos movimentos sociais e no tipo de campanha que depende da militância. Tende a crescer, e deve começar a aparecer nas pesquisas logo.

Também é de se notar no relatório como as diferenças regionais são importantes na campanha deste ano:

A pesquisa perguntou pela avaliação dos candidatos. Ela foi positiva para 54% em relação a Dilma, e 48% em relação a Serra. Marina é regular para 40%. A avaliaçao de Dilma é bem melhor no nordeste (positiva para 64%), enquanto Serra vai muito mal nesta região (34% positivo), e melhor no Centro-oeste e no Sul (56% e 55% positivo, respectivamente). Marina é melhor avaliada na sua região Norte (52% positivo).

Outra diferença interessante é sobre qual é o melhor programa do governo Lula. 31% indicam o Bolsa Família, 22% o Minha Casa Minha Vida, 9% o Pro Uni, 6% o Luz Pra Todos e 6% o PAC.

Mas na região Nordeste a preferência é pelo Bolsa Família (46%), e Pro Uni e PAC só têm 4% cada. Na região Sul o programa preferido é o Minha Casa Minha Vida (28%), e o Pro Uni tem 15%. “Todos são igualmente bons” é indicado pela maioria dos entrevistados na região Norte (40%). Como se vê, no Nordeste o aumento da renda é a questão crucial, no Sul já é possível dar mais valor ao crédito imobiliário e financiamento do ensino superior.

A pesquisa também perguntou sobre continuidade ou mudança das políticas do governo Lula. “Continuar todas” as políticas foi a opção de 36% dos entrevistados; “mudar algumas e continuar a maioria”, foi indicado por 44%; “continuar algumas e mudar a maioria” teve 12%; “mudar todas” teve 5%. Mas separando por regiões, “continuar todas as políticas” é opção de 58% dos entrevistados no Nordeste, de 28% no Sudeste e de 23% no Sul. “Continuar algumas e mudar a maioria” é apontado por 20% no Sul, 17% no Centro-Oeste e apenas 5% no Nordeste. De novo, a região nordeste é onde as políticas do governo Lula estão sendo mais significativas. O Sul sente-se pouco atendido pelas políticas do atual governo. Basicamente uma diferença de classes sociais: um governo bom para os pobres, mas fraco para a classe média. (Como o governo está aumentando a classe média com suas políticas de transferência de renda, está causando problemas para sua linha mais à frente.)

Como se vê, o eleitorado está muito segmentado.

Marina é ainda uma candidata do eleitor dos grandes centros, mais escolarizado e de maior renda.

Dilma é rainha no Nordeste, onde Lula é muito bem avaliado. Mas tem dificuldade no Sul, uma região onde as classes médias tem maior peso.

Serra também tem ligeiro aumento em seu eleitorado à medida que aumenta a renda e a escolaridade. Mas sua grande vantagem é regional: está melhor no Sul, no Sudeste (queria ver o desempenho por estado, mas acho que está melhor em São Paulo, não tanto em Minas e mal no Rio) e no Centro-Oeste.

Esperamos que os candidatos agora saiam da pré-campanha e comecem a apresentar programas de governo e discutir propostas. De preferência que nos apresentem metas mensuráveis e coisas um pouco mais claras do que vieram propondo até agora.

Author: andreegg

Músico, historiador, professor.

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