O que é preciso para melhorar a educação no Brasil?

Brizola Neto, em seu ótimo blog Tijolaço, avalia que a melhoria da educação passa pelo aumento do investimento. Ele faz uma conta simplória: a maior média de notas do ENEM foi de alunos de um colégio onde a mensalidade é de R$ 2.756 – valor maior que o gasto púbico anual por aluno do Ensino Médio, que está em R$ 2.600.

Qualidade na educação precisa de investimento. Sim, mas o valor dos investimentos em questão não explica nada sobre o desempenho dos alunos. Uma pista melhor é dada por Rudá Ricci: as melhores escolas no ENEM são escolas federais, que realizam exame de ingresso.

Ou seja, para além da qualidade das escolas e do quanto elas custam, o fator determinante na educação não é a qualidade da escola, mas a qualidade do aluno. Escolas que selecionam os melhores alunos têm o melhor desempenho. Inda mais no Ensino Médio, instância à qual o estudante chega após 8 anos de Ensino Fundamental.

Para ser bom no Ensino Médio ele precisa ter tido um bom Ensino Fundamental, é claro. Mas não só.

Todo mundo que estuda educação sabe que a gente não desenvolve inteligência, conhecimento e cultura na escola. Isso a gente pega em casa. Aliás, é um erro muito fundamental reduzir educação à escola. Escola é responsável apenas por escolarização, que é muito diferente de educação. É um de seus componentes – é claro que muito importante.

Mas tem outros fatores fundamentais. A escolaridade dos pais, se eles podem ter conversas inteligantes com os filhos, se eles acompanham o desempenho escolar de suas crianças (a maioria no Brasil não faz isso). Se o estudante tem bons livros em casa, ou acesso a bibliotecas, cinema, programação de qualidade na TV (a TV aberta no Brasil é muito educativa, como se sabe), museus. Se tem aulas de música e artes, se pratica esportes. Se tem condições afetivas de se desenvolver, se tem condições mínimas de moradia e alimentação.

Como se vê, a questão vai muito além da escola. O problema da educação no Brasil é muito mais amplo – é um problema decorrente de miséria econômica, e miséria cultural. Que não se resolve só com escola, e não se resolve só pelo Estado. É um problema das famílias, da falta de interesse nosso como sociedade em educar melhor nossas crianças – nisso estamos irmanados todos, ricos e pobres. Pergunte a algum professore de escola particular, quantos pais acompanham o desempenho escolar dos filhos, vão a reuniões, lêem relatórios. Os pais querem, em geral, que a escola seja babá dos seus filhos. Não colocam em escola pública não é por causa da qualidade de ensino: é pra não conviver com pobre, pra ter estacionamento pro carro, pra poder pegar o filho mais tarde – essas coisas.

Outra questão, que precisa ser discutida com mais calma é a questão do aumento de investimento direcionado para a melhoria do salário dos professores. É o que defende, por exemplo, o Aloísio Mercadante nesta entrevista. Mas aí ele vai dar c’os burros n’água quando se eleger (e eu espero que se eleja). O Estado não tem recurso orçamentário de sobra para fazer aumentos salariais. Inda mais que aumentar o salário dos professores não vai melhorar a qualidade da escola, como já perceberam os formuladores de política do PSDB faz décadas. É por isso que eles não aumentam salário de ninguém.

O problema é que, se um professor ruim passar a ganhar mais, ele será apenas um professor ruim ganhando mais. Não um professor melhor. Os administradores públicos precisam perceber que o nó está na formação e seleção dos professores. Salário melhor ajuda a atrair professores melhores para a carreira, mas isso é uma coisa tão a longo prazo, que o Mercadante não chegaria a colher resultados práticos em 8 anos de mandato.

Para a questão salarial, é preciso resolver também este gargalo terrível que é a carreira do funcionário público. Ela é toda desenhada pro cara só ter benefícios dignos quando está em fim de carreira ou aposentado. Se não mudar essa forma de premiar por tempo de serviço, e não por desempenho, não há jeito de melhorar.

Bom, é tudo tema muito complicado, não dá pra resolver nada em um post. Voltemos ao assunto mais vezes. É preciso discutir, e muito, essas questões. Para o bem do Brasil e de nossas crianças e jovens.

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Author: andreegg

Músico, historiador, professor.

11 Comments

  1. Pingback: Saudade do meu Quilombo :: Educação :: July :: 2010

  2. Valeu pela visita André. Grande abraço.

  3. Para melhorar a Educação no Brasil é necessário, primeiramente valorizar o profissional (professor). Esse Piso Nacional implantado é absurdo! Veio para complicar mais ainda a situação, pois foi mal elaborado. O trecho que menciona a carga horária de até 40 horas semanais é uma injustiça já que nenhum professor no Brasil irá conseguir sobreviver dignamente trabalhando exclusivamente em uma escola com o salário de acordo com a lei. Sabe-se que todos os professores trabalham em vária escolas para conseguir melhorar um pouco a renda familiar. Os governantes estão pagando o valor do piso proporcionalmente à carga horária trabalhada em cada estado ou município. No entanto, o salário fica baixíssimo! Como que podem fazer propagandas alegando que o PISO NACIONAL DO PROFESSOR É PARA VALORIZAR O PROFISSIONAL DA EDUCAÇÃO?
    De acordo com esse pressuposto, será necessário uma reformulação na lei melhorando o valor do piso salarial e revendo essa questão de 40 horas.
    Outra questão a ser resolvida é sobre a participação da família na vida escolar do aluno. As leis existentes cobram somente atitudes do professor, da escola e demais profissionais da área. E a família? Quando serão elaborados projetos de lei exigindo uma conduta mais responsável dessa instituição que tem a maior influência na formação do indivíduo?
    Já foi comprovado através de pesquisas que a família é a maior responsável pelo sucesso ou fracasso escolar, moral e social da pessoa. A escola tem o papel e ensinar e os pais, ou responsáveis, têm o papel de educar, transmitir valores e conduzir o sujeito para crescer com dignidade. Porém, sempre que há problemas na aprendizagem, no comportamento, na socialização do aluno,etc, “A CULPA É DO PROFESSOR”. Esses pais irresponsáveis, que deixam de dar limites e boa orientação aos filhos, são os primeiros a culpá-lo, e a justiça, vara da infância e juventude, conselho tutelar… sempre apoiam a família e questionam a competência e profissionalismo do educador. Até quando as coisas irão permanecer assim? É preciso mudar logo. A Educação só irá avançar no Brasil, quando houver leis que exijam que todos (também da família) desempenhem a função que lhes cabem em relação à educação e formação plena da criança e adolescente.

  4. Paranéns pelo comentários sobre a educação no brasil

  5. para melhorar a educacão,o aluno tem que criar vergonhar e prestar atencão nas aulas. E valorizar mais os professores.

    • Jacilene,

      seria o caso de prestarmos atenção em porque os alunos não prestam atenção nas aulas, e pensarmos em fazer aulas mais interessantes. E valorização dos professores não começa pelos alunos, começa pelos pais, começa pela sociedade de maneira mais ampla. Enquanto o estudo for visto como coisa de trouxa, não avançaremos nada nesta questão…

  6. nao a questao de prestar atençao na aula mais sim o q o professor ensina e se anima mais a aula e os alunos q nao tem intersse chamo o conselho da escola

  7. Pingback: Retrospectiva 2011 (3): estatísticas neste blog – Um drible nas certezas

  8. Muito interessante seu ponto de vista. Apesar de não atuar como educador, trabalho há 11 anos na secretaria de um Colégio particular no interior do estado de Minas Gerais, portanto convivi boa parte de minha vida com a Educação de crianças e jovens desde minha geração (estudava na mesma escola quando comecei a trabalhar nela), acabei tomando gosto por essa arte.

    Algumas vezes me flagro em meio a discussões sobre a educação no Brasil sem sequer saber ao certo como fui parar ali, e confesso que sua postagem apresentou-me mais uma nova perspectiva. Aliás, analisando agora, que já li seu texto, percebo o quanto é óbvio (talvez pela natureza de minha graduação não ser a pedagogia eu tenha demorado para perceber) o quanto a educação ideal depende de tantos fatores externos que igualmente exigem a atenção do governo (mas principalmente das famílias), como saúde, afetividade familiar, alimentação, moradia, etc.

    Dentre todas as (boas) discussões que já participei, o que mais ouço dizer é que o primeiro passo é a valorização dos professores com salários dignos. Não que eu não acredite que os bons professores mereçam receber o dobro ou o triplo do que recebem hoje (amo e vou amar para sempre todos os professores que passaram por minha vida e me ensinaram tudo o que sei e o que sou, e com certeza vou morrer amargando a concepção de que eles não receberam o que mereciam por isso), mas não acho que esse seja o primeiro passo, pelo menos não no formato que a maioria pleiteia.

    Eu tive sorte. Posso afirmar que a grande maioria dos professores que tive nos tempos de escola e faculdade foram ótimos (e estudei boa parte do Ensino Fundamental em escola pública). No entanto, trabalhando no ramo da educação, a gente tem conhecimento dos diversos cenários existentes na educação atual, tanto pública quanto privada. A quantidade de péssimos profissionais da educação (professores e pedagogos) é enorme. O que a gente percebe pelo cenário atual é que a área da educação se tornou uma válvula de escape para os péssimos profissionais de qualquer ramo de atuação. Sempre que alguém perde o emprego ou não consegue o primeiro emprego na área desejada, pleiteia junto à Superintendência de Ensino mais próxima a autorização para lecionar alguma disciplina abordada em seu histórico ou diploma. Hoje em dia é muito fácil se tornar professor.

    Por isso, assim como o autor da postagem bem disse, eu não acredito que apenas aumentar o piso salarial dos profissionais da educação seja um bom começo, aliás, eu acho um péssimo começo. É triste, mas é pouco provável que essa atitude melhore a educação como um todo. Se muito, concordo com a suposição do autor, a longo prazo. O que acontece é que, em meio a tantos protestos e greves, muitos se esquecem que a luta em questão é para a melhoria da Educação no Brasil.

    O justo e ideal para todos seria uma reformulação geral; um tratamento de choque nas políticas adotadas pelo governo em relação à Educação, Saúde, Infraestrutura, políticas sociais, etc. Tudo em conjunto. Isso incluiria um modelo completamente novo de plano de carreira para os profissionais da educação (e tantos outros profissionais que estão no mesmo barco furado), que valorize os bons profissionais de fato. Não é tão simples quanto se pensa.

    Só para concluir meu falatório, antes que encham as mãos de pedras para discordarem de mim, eu faço um convite a todos profissionais da educação que estão lendo isso para participarem de uma pequena e instantânea “dinâmica de grupo”: pare e tente se lembrar com quantos professores e pedagogos você já trabalhou em toda sua carreira. Agora tente separar mentalmente quais dentre eles eram realmente bons profissionais e quais realmente não mereciam ser chamados de Professores ou Pedagogos com P maiúsculo. Para essa “brincadeira”, a quantidade não importa, pois pode variar bastante, claro. Agora, pense na atitude dos bons em relação aos ruins e responda para si mesmo: existia o trabalho em conjunto a fim de sanar as dificuldades de cada profissional? Quantos profissionais ruins você acredita que se tornaram bons com o decorrer do tempo de profissão? Os profissionais bons de fato participam/participaram do aprimoramento (ou nivelamento) de seus colegas de profissão? A Escola foi uma boa escola para esses profissionais? Minha conclusão é um pouco dura, mas é resultado do que vivenciei até então em minha breve e errante vida: todo profissional (de qualquer área) que se dispõe a trabalhar ao lado de péssimos profissionais e não faz nada para mudar o cenário (nem que seja denunciar os diversos CRIMES que se tem notícia de acontecerem dentro de escolas e de salas de aula), automaticamente está predisposto a receber o mesmo salário destes péssimos funcionários.

    Com eu disse, acredito que a mudança deva ser geral. E isso inclui nos mesmos, como participantes da comunidade escolar (seja como pai, tio, funcionário, estudante, etc), nossas atitudes e nossa forma de pensar.

  9. A falta de investimentos e de valorização dos docentes é uma realidade.Entretanto, tenho notado uma enrome parcela de professores que atuam no ensino fundamental sem nenhuma capacitação e compromisso para o exercício.As coisas pioram, quando partimos para o ensino públicos das pequenas cidades, onde deparamos com alunos do 4º ano que nem sabem os meses do ano.Nas pesquisas de campo que já fiz, o que notei foi um imenso despreparo dos profesosres que lecionam, e isso com certeza colabora com os maus resultados do ideb. As justificativas são várias, mas a principal delas é o baixo salário pago aos profesosres.Ora, se fizermos uma levantamento histórico, veremos que nunca na história desse país, o professor foi bem remunerado, mas se compararmos o nível de aprendizado , veremos que no passado ele foi bem maior.O descaso na educação pública é um fato, mas não apenas do governo, parte dos professores também colaboram com esse descaso.Além de mais investimentos, é necessário que haja uma renovação do corpo docente,pois hoje estamos enfretando um choque de gerações no que se refere à prática docente.Profissionais do antigo curso de magistério que mostram uma extrema resistencia para mudanças e atualização .Falta empenho, criatividade, e vontade de mudar.