Brasil se despede da Copa

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Deve ter muita gente sofrendo um tanto agora. Para estes eu gostaria de lembrar o óbvio: é só um jogo de futebol. Não vale a pena ficar tão eufórico quando ganha, nem tão triste quando perde.

Normalmente, depois de uma derrota começa a caça aos culpados.

Eu acho que isso não é necessário.

O Brasil jogou bem em todos os jogos, teve uma participação honrosa. O nível de exigência com a nossa seleção é altíssimo, as reclamações costumam ser exageradas. Desde a Copa de 1938 o Brasil sempre é um competidor muito importante, ficando entre os principais times. Somado ao fato de que o futebol é um elemento muito forte de representatividade nacional, para um país que se acostumou a perder em tudo, menos quando estava representado pelos garotos da sua seleção masculina de futebol profissional.

A seleção holandesa dominou completamente o Brasil, e teve todos os méritos. Não que tenha jogado um grande futebol. Mas soube explorar como devia o grande ponto fraco do Brasil: seu desequilíbrio emocional.

Isso começou a ficar muito claro no jogo contra a Costa do Marfim. Eu escrevi um texto sobre isso, que, obviamente, ninguém gostou. O Brasil não foi prejudicado pela arbitragem naquele jogo. Pelo contrário, ganhou com folga, inclusive com a validação de um gol ilegal. O que eu chamava à atenção era o fato de que o Brasil, mesmo ganhando e sendo beneficiado pela arbitragem, exagerou nas reclamações, fez faltas desnecessárias e perdeu totalmente o controle.

Não era pra ser assim. O Brasil, tradicionalmente é um time que enerva os adversários, não que se deixa enervar. Fintas e dribles desconcertantes fazem adversários perder a cabeça e iludem as bem postadas defesas. Foi assim nos anos de ouro e nos títulos de 58, 62 e 70.

Hoje o futebol brasileiro se envergonha do nosso estilo característico de jogo. Os nossos garotos são uns boys mimados, que os empresários pegam pela mão com 15, 16 anos, e terminam a carreira aos 30 e tantos sem serem capazes de fazer check-in sozinhos em aeroporto, ou pedir uma refeição num restaurante. Quem diz isso não sou eu, mas ouvi da boca do Sócrates, num debate sobre futebol e política aqui em Curitiba.

Exatamente o contrário do padrão estabelecido por nosso maior craque: um jogador que jogou a vida inteira no mesmo clube, e que soube como ninguém administrar uma carreira vitoriosa que se encerrou no auge.

Bem, não adianta chorar sobre o leite derramado. É começar a preparar o time que vai nos representar aqui em solo pátrio em 2014.

Dunga vai voltar desempregado, não tenho dúvidas. E digam o que disserem dele, foi um bom técnico. Para mim o maior defeito do seu trabalho foi que ele não foi capaz de criar um clima emocionalmente favorável. À beira do gramado ele era mais instável emocionalmente que os próprios jogadores em campo. Esmurrava a armação do banco de reservas e reclamava muito em todos os lances. Se alguém quisesse olhar para “o professor” em busca de segurança à margem do gramado, só encontraria instabilidade. Um perfeito mau exemplo.

Outras coisas precisam melhorar. Mas essas eu não tenho dúvidas que vão ficar como estão. Ricardo Teixeira, responsável máximo pelos problemas todos do nosso futebol, está muito bem politicamente, surfando no Brasil-sede. Vai ganhar ainda muito dinheiro às custas do torcedor, e continuar conduzindo nosso futebol pelo mau caminho. A recuperação da força vitoriosa da nossa seleção passa pela recuperação do nosso futebol como um todo.

Pela melhoria do nosso campeonato e dos nossos clubes, pelo fim das negociatas, pelo fim das relações com o crime organizado, pelo fim do desvio de dinheiro, pelo fim dos esquemas políticos sujos, pelo fim da relação ilícita com a televisão, etc, etc, etc. O futebol brasileiro precisa de uma reforma política urgente.

Vai fazer o Brasil ganhar tudo?

Não, é claro que não.

Mas outra coisa que precisamos muito é parar com esse negócio de “pátria de chuteiras”. Usamos isso como justificativa para fechar os olhos a todos os descalabros e aceitar tudo quietos, contato que possamos comemorar os gols e as vitórias. A reforma do nosso futebol passa, é claro, por uma mudança de nossa postura como torcedores.

Coisa a que não estamos dispostos.

E agora que meus palpites já estão dando errado, resta torcer pelos sul-americanos. Vou correndo comprar uma camisa da Argentina.

Author: andreegg

Músico, historiador, professor.

3 Comments

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  2. eu bem que comprei minha camiseta da argentina com antecedência. infelizmente a copa acabou pra eles também! pelo menos ainda podemos torcer pelo uruguai!

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