A entrevista de Marina Silva para a rádio CBN

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Mais uma entrevista da série com os pré-candidatos à presidência da república, promovida às segundas-feiras, dentro do jornal da CBN. Veja os comentário às duas entrevistas anteriores aqui neste blog:

A entrevista de Dilma Roussef para a rádio CBN

A entrevista de José Serra para a rádio CBN

É muito interessante que a eleição presidencial tenha mais que dois candidatos. Isso enriquece o debate. Nesse sentido, lastimo que o PSB não tenha lançado Ciro Gomes. E lastimo também que a CBN não entreviste outros pré-candidatos. Ao menos Plínio de Arruda Sampaio deveria ser chamado.

Por que digo isso?

As candidaturas de Serra e Dilma são candidaturas comprometidas pesadamente com o stablishment político. São de centro-esquerda, porque a direita é inviável eleitoralmente no Brasil desde sempre. Num país com tanta pobreza, desigualdade e problemas estruturais, propostas liberais ou conservadores não prosperam. Restam os golpes militares que abundaram em nossa história (1889, 1896, 1930, 1937, 1945, 1964, etc, etc) ou a estratégia recente de diluição. Este ano as forças políticas conservadoras estão diluídas no apoio aos projetos do PT ou do PSDB, dispondo-se a sobreviver como parasitas políticos, sem projetos ou candidatura próprias, mas capazes de sugar as energias de mudança destes dois grandes partidos que emergiram da redemocratização.

Nesse sentido, é interessante que o discurso de campanha de Marina preconize o aproveitamento do legado positivo dos dois partidos, que somam já 16 anos de governo. Por outro lado, Marina se apresenta como uma candidatura que não prioriza o passado, mas o futuro. Ao invés de defender governos passados (Serra defende o governo FHC, do qual participou, e Dilma o governo Lula, da qual foi uma das principais lideranças), Marina se dispôs a fazer uma autocrítica de posições passadas.

Reconheceu erros de sua atuação parlamentar durante o tempo em que o PT fazia oposição sine qua non ao governo FHC, por exemplo, arrependendo-se de ter sido contrária à Lei de Responsabilidade Fiscal ou ao Plano Real. Isso foi exatamente no momento da entrevista em que participa Miriam Leitão. Como nos outros dois candidatos, a jornalista foi escalada para fazer as perguntas incômodas e testar o humor dos candidatos com sugestões até mal-educadas. Serra destemperou-se, Dilma foi dura sem perder a compostura. Marina foi mais elegante, sem deixar de alfinetar a arrogante jornalista: quando perguntada se era uma pessoa confiável, afinal vivia sempre mudando de idéia, Marina respondeu que é correto mudar de opinião, especialmente se for para reconhecer erros e avançar politicamente. E disse que a própria Miriam Leitão mudou de opinião e hoje é uma aliada da questão ambiental, passando a levar em conta este fator em suas análises econômicas. Infelizmente a CBN não selecionou este trecho da entrevista para eu linkar aqui, mas se você for para o áudio completo da entrevista (indicado ao fim deste texto), procure o trecho por volta dos 20 minutos.

No mais, Marina se apresenta como uma candidatura livre de compromissos políticos espúrios, que praticou nomeações técnicas em seu ministério (lembremos que renunciou ao cargo quando achou que estava sofrendo pressões políticas inaceitáveis). Defende como principal bandeira de campanha a questão do desenvolvimento sustentável, e nesse sentido foi a maior parte de sua fala. Considera que é uma falsa dicotomia a questão de que a proteção ao meio-ambiente atrapalha o desenvolvimento econômico. Levantou a tese de que nenhum desenvolvimento econômico será possível sem o devido cuidado com o meio ambiente.

Afirmou que o Brasil é o único país capaz de fazer no século XXI o que fez os EUA no século XX: ultrapassar os países centrais no desenvolvimento conforme os paradigmas do século. O Brasil e a principal potência em recursos energéticos renováveis, e precisará construir um novo modelo de desenvolvimento que priorize esta questão. Neste sentido, Marina propõe que os outros dois pré-candidatos estão vinculados demais aos projetos do passado, enquanto ela acredita que é necessário parar de discutir o passado, partindo dos ganhos já conquistados para projetar um novo futuro.

Entre suas principais bandeiras apresentadas na entrevista estão a necessidade de uma Reforma Tributária, se possível com uma assembléia constituinte eleita especificamente para esse fim. O Estado precisa, segundo ela, diminuir seu peso sobre a economia do país, e aumentar a eficiência de seus resultados. Marina defendeu também uma reforma previdenciária, que possibilite ao país aproveitar bem o bonus demográfico que irá viver nas próximas décadas (remeteu aqui à questão de que pela primeira vez a população economicamente ativa será majoritária, devido à redução da taxa de natalidade – veja mais sobre isso neste texto). Em relação a esta questão, disse que se fosse presidente agora, vetaria o fim do fator previdenciário, mas não o reajuste de 7,7% aos aposentados. Sobre isso, disse que pode-se viabilizar recursos para pagar os aposentado fazendo as escolhas orçamentárias certas (deu como exemplo de escolhas erradas os financiamentos bilionários do BNDES a frigoríficos e os subsídios à usina de Belo Monte).

Insistiu na necessidade de investimentos pesados em educação, conhecimento e inovação. Para isso considera necessário um piso salarial digno para professores, combinado com incentivos baseados em avaliação de desempenho. Comparou, como indicativo de status, a carreira de professor à de juiz – estes muito prestigiados social e financeiramente, ao contrário do que acontece com os professores.

Sobre a redução de jornada de trabalho para 40 horas semanais, disse ser favorável à medida, inclusive como coerência com seus tempos de sindicalista e fundadora da CUT. Mas hoje acredita que não pode ser uma medida isolada, considerada como benéfica por si. É preciso, mais do que reduzir a jornada, evitar que os trabalhadores façam horas extras, incluir os setores informais nas garantias da legislação trabalhista e repensar as cidades e a questão da mobilidade urbana. Neste sentido, pode fazer muito mais sentido reduzir as horas gastas em transporte no trânsito das cidades do que reduzir a carga horária na empresa.

Me parece que Marina será a candidata disposta a enfrentar os pontos fracos do PT e do PSDB, insistindo em questões que os dois principais candidatos irão fugir, por conta de seus compromissos com o passado. Será uma candidatura muito bem-vinda pelo que trará de aprofundamento do debate. Me parece também que se propõe como uma candidatura mais autêntica, no sentido de que será entre os 3 primeiros candidatos, aquela que menos tentará criar uma imagem pública surgida da prancheta dos marqueteiros.

Pelo tamanho de seu partido (PV) e pelos recursos de que dispõe para fazer campanha, tem poucas chances reais. Será uma candidatura quixotesca.

Mas, volto a insistir, trará um pouco da utopia necessária ao saudável debate político.

Como eleitor, considero o grande defeito da candiadatura Marina a total inconsistência do seu partido. Obviamente, se fosse eleita ela não teria força para implantar as medidas que propõe. Seu partido é muito pequeno – em 2006 o PV elegeu apenas 13 deputados federais e 34 estaduais (segundo a wikipedia). Mas, pior que isso, é um partido que conjuga setores avançadíssimos da nova esquerda, como muitos ambientalistas e como, por exemplo, a fantástica atuação do partido no comando do Ministério da Cultura (com Gilberto Gil e Juca Ferreira) com o que há de pior do oportunismo político no Brasil. Da qual seja, talvez um bom exemplo, a prefeita Micarla Souza,  de Natal: ela é filha e herdeira política de Carlos Alberto de Souza, que foi do MDB, depois PMDB, mas passou para o PDS, pelo qual elegeu-se senador em 1982. Depois migrou para o PTB, PDC, PFL e encerrando sua carreira política no PSDB. Ou ainda, os três péssimos vereadores que elegi em Curitiba com meu voto de legenda; animado com a ótima campanha para prefeito de Maurício Furtado – ajudei a colocar na Câmara Municipal o radialista Roberto Aciolli, o já acusado de assediar sexualmente sua acessora parlamentar prof. Galdino e o ex-jogador de futebol Aladin. Todos fizeram parte da base de apoio ao prefeito do PSDB.

Como se vê, o PV não é “flor que se cheire”, e será o grande entrave à candidatura Marina, sendo ela, pessoalmente, um importante quadro político com ótimas propostas.

Ouça aqui a entrevista completa de Marina Silva.

Leia também:

O cenário das eleições presidenciais definidos os principais pré-candidatos (artigo que escrevi no Amálgama)

Author: andreegg

Músico, historiador, professor.

6 Comments

  1. André, analisando friamente as três principais candidaturas dá para perceber a “liberdade” da Marina por estar desligada de qualquer governo anterior.

    Das três entrevistas, essa foi a que eu me senti mais a vontade sobre o debate de propostas, sobre solução de problemas. Nos casos de Dilma e Serra também existe propostas, claro, mas eles ainda sofrem com o “elo” governamental de Lula e FHC que, às vezes, tira um pouco o foco da discussão.

    Gosto das ideias dela, mas como você bem disse no final, tenho dúvidas sobre a questão da governabilidade. Todos nós sabemos o quanto é difícil governar no Brasil, onde a questão partidária é muito forte. E tenho receios de como a lidaria com a situação.

    Apesar disso – ainda – é uma pena que ela tenha poucas chances de vitória. Hoje é a única candidata que eu vejo pensar mais no futuro no que passado e dar ênfase ao desenvolvimento sustentável.

    No quesito Meio Ambiente, tanto Dilma quanto Serra ainda me dão medo.

    Abraço e parabéns pelas excelentes análises das entrevistas.

    • Obrigado pela visita, comentário e elogios.

      Concordo com tuas análises também. E acho que é improvável que ela ganhe, mas acredito também que ela pode levar os dois principais candidatos a assumir compromissos que não assumiriam caso a candidatura dela não estivesse disputando.

      Existe até a possibilidade de ela compor um governo com José Serra, por exemplo. Um eventual apoio dela no segundo turno seria crucial para ele, e ela poderia fazer isso negociando plano de governo ou até um posto significativo.

      Um verde que fez isso, me parece foi o Eduardo Jorge, também saído do PT. Ele foi secretário de saúde de Erundina e Marta, depois preterido no ministério de Lula por Humberto Costa.

      Acabou saindo do PT, indo para o PV e passou a compor o governo Serra, do qual assumiu a secretaria municipal de meio-ambiente.

      Está no staff de campanha de Marina.

      Também acho muito positiva a candidatura do Gabeira no Rio.

  2. peloamordedeus André, a candidatura de Serra não é nem de centro nem de esquerda.

    é extrema direita! Olha o vice: José Carlos Aleluia, o único defensor vivo do carlismo!

    Serra está hoje à direita de ACM…

    • Fui até olhar as notícias, pra ver se tinha me escapado alguma coisa. Mas o vice do Serra está indefinido ainda. Se for o Aleluia vai ser uma chapa com candidato presidencial de esquerda e vice de direita – como nos tempos do FHC.

      Já o Michel Temer é de esquerda ou de direita?

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