A entrevista de Dilma Roussef para a rádio CBN

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Como todo mundo já deve saber, a rádio CBN está transmitindo segundas pela manhã um ciclo de longas entrevistas com os pré-candidatos à presidência do Brasil. Semana passada o entrevistado foi José Serra (veja sobre a entrevista aqui). Hoje, há pouco, foi a vez de Dilma Roussef, semana que vem será Marina Silva. As entrevistas estão acontecendo das 8:00 às 9:00 da manhã de segunda-feira.

Como aconteceu na entrevista de José Serra, o jornalismo da CBN está adotando uma boa postura: propõe temas, informa perguntas mais sugeridas pelos ouvintes, convida jornalistas para fazer perguntas temáticas. Sobretudo deixa o candidato falar à vontade. Mas os jornalistas procuram ser incisivos na escolha de temas com maior potencial polêmico.

Em especial a Miriam Leitão, que protagonizou o episódio mais espalhafatoso da entrevista com José Serra ao perguntar se ele interferiria na política de juros do banco central. Recebeu uma resposta grosseira, que coloca ironicamente o candidato do PSDB como ameaça à estabilidade dos mercados (quem entende o Brasil?).

Na entrevista de hoje, Miriam Leitão tentou colocar Dilma em má situação com a seguinte pergunta: “quando os ministros Palocci e Paulo Bernardo defenderam o fim do déficit a senhora foi contra. Onde foi que a senhora mudou de idéia?” (Veja o trecho aqui).

Foi de novo o único momento mais conturbado da entrevista, e Dilma não foi tão estúpida quanto Serra, mas precisou dizer que Miriam Leitão estava distorcendo fatos e contorcendo números. O argumento de Dilma foi que ela nunca foi contra controle de depesas. Ela disse que depois de 2005 (quando teria acontecido a disputa sugerida por Miriam Leitão), ela assumiu a chefia do governo e o país continuou produzindo superávit e tendo política consistente de redução da dívida. O ano de 2009 foi ponto-fora-da-curva pela necessidade de combater a crise.

Ao fim deste texto está o link para ouvir toda a entrevista, mas dou aqui minha síntese.

O que parece que vai ser a linha central da proposta de governo da candidata é o aumento da eficiência do Estado brasileiro. Quase tudo que ela falou foi nessa linha, e isso é condizente com sua tragetória política recente, como a grande gerente do governo a partir do gabinete da Casa Civil do governo Lula.

Dilma defendeu aumento da qualidade do gasto público, com incentivos a uma maior qualificação do funcionalismo público. Citou como exemplo o Ministério das Minas e Energia que assumiu em 2003, onde havia uma relação de 1 engenheiro para cada 20 motoristas. Usando isso como slogan, ela disse que o Estado brasileiro não precisa aumentar de tamanho, mas melhorar sua eficiência: “mais engenheiros e menos motoristas” – seria o lema.

Denfendeu a expansão dos recursos para a saúde, não descartando a volta da CPMF ou a criação de outro tributo. Textualmente, a pergunta de Heródoto Barbeiro era se o aumento de recursos para a saúde será feito com mais impostos ou não. A resposta foi:  “devemos tentar sem aumento de impostos, mas não sei se é possível”. Este trecho sobre saúde e CPMF você pode ouvir aqui. A proposta de políticas para saúde inclui aumento dos postos de pronto-atendimento 24 horas e das policlínicas com especialistas, indo além do passo inicial, já dado, de universalização das unidades de saúde e das equipes de saúde da família.

Neste ponto, é bom que se diga, o governo Lula avançou muito pouco em 8 anos.

Outra questão diz respeito à maior qualificação dos professores, considerado por Dilma o principal fator de melhoria da educação. Sabendo que a curva demográfica do Brasil nos próximos anos não exigirá construção de escolas, a questão da qualificação dos professores torna-se central. Dilma disse em relação a isso que não se pode separar o ensino superior do ensino básico, pois é a universidade que forma e qualifica os professores. Ela defendeu melhoria de salário associada à formação continuada. Este trecho a CBN não disponibilizou em separado. Também eu acrescentaria que o avanço neste ponto em 8 anos de governo Lula foi pífio.

Dilma foi contra uma grande reforma da previdência, dizendo que são necessários ajustes pontuais freqüentes. Explicou que as contas da previdência não tem grandes déficits atuariais, exceto pela necessidade de fazer política social com aposentadorias por idade e do setor rural, que não foram cobertas por contribuição. Ouça o trecho.

Sobre a usina de Belo Monte, disse que a questão principal é escolher entre gerar energia queimando combustíveis ou pela matriz hidrelétrica. E afirmou que a discussão não foi insuficiente sobre o projeto. (Trecho)

Foi perguntado a Dilma se ela se considera de esquerda. Ela respondeu que sim. A questão também tinha sido proposta a Serra semana passada, e ele respondeu sugerindo que os conceitos já estão um pouco caducos, propondo-se como “de esquerda” por defender um Estado indutor do desenvolvimento (principalmente pela operação da taxa de juro, é o que parece, como bem discute o NPTO). Dilma fez outro tipo de explicação: é “de esquerda” por sua trajetória política, mas propõe que a verdadeira proposta de esquerda hoje é o combate à miséria. Ou seja, ser de esquerda não é mais trabalhar por uma hipotética revolução, mas trabalhar aqui e agora pela melhoria das condições dos mais pobres. Neste sentido Dilma apontou como grande proposta de seu governo a eliminação da pobreza extrema ou miséria no Brasil na próxima década. Continuidade do que foi o principal trunfo do governo Lula. (Ouça o trecho).

Sobre segurança pública defendeu a política do governo Lula, de fortalecimento da Polícia Federal, da formação de uma Força Nacional de Segurança, e da parceria com os estados – dando como modelo o que está sendo feito no Rio de Janeiro com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) e com os investimentos em áreas de grande concetração de violência. (Este trecho a CBN selecionou mas parece que não está funcionando)

A entrevista completa está disponível aqui.

Se eu fosse do staff de campanha da oposição, estaria bem preocupado. Além ser a candidata de um governo muito popular, Dilma tem brilho próprio como estadista, e parece se desincumbir muito bem das atividades de campanha. Comparando as duas entrevistas, achei que ela teve diagnósticos e propostas mais claras que Serra, e teve mais tato para lidar com perguntas constrangedoras, sem precisar da estupidez colocada em ação pelo rival.

A este propósito, é preciso que se esclareça a posição política deste que vos escreve. Sou de esquerda. Voto no PT, geralmente. Mas não considero Serra o candidato da direita. Acho sim, que ela (a direita) está sem candidato este ano, e vai ter de repensar sua atuação político-partidária no Brasil. A respeito disso, recomendo meu artigo sobre o cenário da campanha, que escrevi no Amálgama.

Por princípio, poderia votar em qualquer dos 4 principais candidatos, e lamento muito que a CBN não vá entrevistar Plínio de Arruda Sampaio do PSOL, o que empobrece deveras o debate. Estou entre os eleitores que vai decidir o voto ao longo da campanha, que por enquanto vai sendo de alto nível.

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Author: andreegg

Músico, historiador, professor.

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