A entrevista de José Serra para a rádio CBN

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Foi agora há pouco, das 8:00 às 9:00. Faz parte de um ciclo de entrevistas com os principais pré-candidatos à presidência. Próxima segunda será entrevistada Dilma Roussef (PT ) e dia 24 Marina Silva (PV). Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) parece que vai ficar chupando o dedo – mas realmente ele não faz parte do time de candidaturas aceitáveis ao stablishment e não seria convidado pela CBN a não ser que ela fosse obrigada por lei, o que só ocorre após 5 de julho, quando são registradas as candidaturas oficiais.

Eu aproveitei que estava no carro esperando minha filha em uma aula – ia ler um livro, torquei pela entrevista. De modo que você pode esperar também meus comentários sobre as próximas.

Para quem cair de para-quedas aqui no blog, vindo, por exemplo, do google, é preciso que se diga que não sou um analista imparcial, como se verá. Sou historiador e professor universitário, esquerdista. Votei em Lula nas últimas duas eleições, mas poderia ter votado em José Serra em 2002, não tivesse feito uma campanha tão ruim. Minha análise do quadro atual da pré-campanha (onde você pode conhecer melhor minhas posições) foi publicada no Amálgama.

Sou dos que acham que todos os candidatos deste ano são de esquerda, posição que não é compartilhada pela maior parte do eleitorado petista. Isso foi até tratado na entrevista, Serra não aprofundou muito a questão, tergiversou sobre a possibilidade de aplicação do conceito nesses tempos, mas disse que sim, pode ser definido como “de esquerda” – por ser desenvolvimentista e defender um Estado indutor.

A entrevista foi bem conduzida por Heródoto Barbeiro, com participações e perguntas de Lúcia Hipólito e Miriam Leitão, entre outros comentaristas da CBN.

Você vai poder ouvir a entrevista toda se quiser, ao final do post. Mas antes quero destacar o que considero os pontos principais.

Em linhas gerais José Serra não se apresentou como uma contraposição ao PT ou ao governo Lula. Não fez críticas muito diretas, comprometeu-se a manter os programas ja definidos por este governo. Em relação ao Bolsa Família, disse que será mantido, com aprofundamento nas contrapartidas relativas ao Programa de Saúde Familiar e ampliando a contrapartida escolar para o Ensino Técnico de nível secundário.

As críticas ao governo atual foram pontuais: necessidade de aumentar o investimento público para permitir crescimento sustentável da economia; sugeriu melhorias na educação básica, mas mostrou desconhecimento do tema, quando disse faltar material didático – anunciou continuidade de sua políticas aplicadas no estado de São Paulo, conjugando um piso salarial digno com incentivos financeiros ao mérito e ao cumprimento de metas.

Críticas mais contundentes foram feitas à atuação do governo na segurança pública. Prometeu criar um ministério da segurança e construir presídios federais, bem como assumir a responsabilidade federal no combate aos crimes de contrabando e tráfico de drogas e armas.

Também foi crítico no tema do “aparelhamento” do Estado pelo petismo. Disse que privilegia técnicos para os cargos executivos, e que prefere negociar com a base aliada usando, por exemplo, as emendas parlamentares. Disse que não fará nomeações políticas.

Interessante a macro-estratégia de campanha: Serra não será o anti-Lula. Suas críticas são pontuais, propõe uma continuidade com mudanças. Ressalta a continuidade entre o governo FHC e o governo Lula, e nisso fica muito confortável pois foi um crítico interno em várias linhas ao governo FHC. Aí destacou-se o principal ponto de divergência com a política econômica atual (que é a manutenção da política de FHC): autonomia para o Banco Central e juros mais altos do mundo.

Ficou muito engraçado isso.

Serra entrou de sola na Miriam Leitão. Se você não for ouvir a entrevista toda ouça ao menos este trecho. Em resumo, ele acha que os juros tem que ser menores, e se preciso “puxa a orelha” do presidente do Banco Central. Chegou mesmo a ser grosso com a jornalista (não que eu tenha achado isso ruim). Fica bem estranho ver que os liberais e defensores do não controle do Estado estão sem candidato este ano:

Outro ponto interessante, que vem sendo bastante discutido pelos analistas, é a opinião de Serra em relação ao Mercosul. Primeiro é preciso que se diga que o Mercosul não existe. Continua mera retórica. Neste sentido, Serra propõe o fim da união da Tarifa Externa Comum, que engessa o Brasil para negociar acordos. Propõe o aprofundamento do Mercosul como uma unidade de livre comércio. Acho ótima a proposta, mas ele não explicou como fará para garantir aos vizinhos menores (se Argentina já é ameaçada pelo nosso tamanho e potência industrial, imagine o Uruguai e o Paraguai) que não serão esmagados economicamente pelo gigante do bloco. Sem vantagens claras para os vizinhos, o Mercosul não funciona, e o livre comércio não tem a mínima chance de prosperar – acho que o governo argentino está correto em não aceitar isso.

Por outro lado, o Mercosul precisa aumentar a sinergia com uma estrutura de transportes, mais unidade cultural, facilidades de trânsito entre os países, incentivo a projetos culturais e educacionais conjuntos. Nada disso se fala, e a união devia começar por aí, não pelo livre comércio.

Bem, em linhas gerais considero que foi uma grande entrevista. Ouça ela inteira aqui.

Continuo com a opinião de que não haverá ruptura nesta eleição, assim como não ouve com Lula em relação a FHC. Segue sendo mais crucial a composição que será definida para o congresso nacional, e a possibilidade de melhorar o nível sofrível de muitos governos estaduais. Alguém pode achar ruim esta situação, com todos os candidatos seguindo a mesma linha política geral. Eu digo: bem-vindos a uma era de estabilidade político-instutucional, que o Brasil nunca teve. Estranho? Pode ser, mas muito saudável.

Leia também:

A entrevista de Dilma Roussef para a rádio CBN

A entrevista de Marina Silva para a rádio CBN

Author: andreegg

Músico, historiador, professor.

5 Comments

  1. Você, com certeza não é petista, e com certeza tem algumas limitações pra entender o que é a esquerda e o que é adireita ideologicamente falando. Sugiro que leias Emir Sader na Carta Maior. O Serra não representa a direita???? Fala sério né!

    • Samira,

      já votei muito no PT e ainda voto, já até trabalhei como fiscal do partido na votação. Mas não sou petista, não sou filiado ao partido, e, como eleitor me considero livre para votar em quem eu quiser. Continuo votando na esquerda, não apenas no PT.

      Obrigado pela sugestão do Sader, e da Carta Maior, não sabia que eles existiam :-)

      Brincadeira, é claro que eu já li muito o Sader, algumas coisas dele são legais, mas a maioria eu não concordo, obviamente.

      Você acha que quem não é petista tem limitações para enteder o que é esquerda e direita?

      Eu diria que você tem sérias limitações para entender qualquer coisa um pouco mais complexa, como é o caso das classificações políticas e ideológicas. Não tem problema, eu te explico:

      Interferir na política do Banco Central para baixar juros é uma proposta de esquerda. Direita defende controle mínimo do Estado sobre a economia. Entendeu? Ou tem limitações para isso?

      Serra tem origem nos movimentos católicos de esquerda, foi fundador da UNE, foi exilado no Chile durante a ditadura, e é casado com a filha do presidente comunista do Chile – aquele que foi assassinado no golpe de Pinochet em 1973.

      Se o Serra não é de esquerda, não sei quem é.

      Agora, outra questão, é que a direita não tem candidato presidencial no Brasil. Um país com tantas desigualdades, a direita não tem proposta com apelo eleitoral pra ganhar sequer eleição de síndico.

      O que eles fazem? Obrigam os candidatos de esquerda a assumir compromissos políticos, e assim evitam maiores riscos. Estão se segurando como podem, há décadas.

      Ou você acha que o Michel Temer, cotado para vice de Dilma é um prócer da esquerda?

      E que tal o Henrique Meirelles, que comandou a política econômica de Lula? Ele é comunista, decerto.

      Você tem sérias dificuldades para entender que política é uma coisa um pouco mais complexa que a divisão entre petistas ou não petistas, ou entre quem concorda ou não com o Sader.

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