Saiu mais um ótimo texto do André Tadeu de Oliveira no Amálgama:
A autoridade da Bíblia na tradição protestante
É um texto sóbrio, bem escrito. Saiu da pena de um religioso devoto, estudante de teologia e, quiçá, futuro pastor presbiteriano. É todo favorável à ortodoxia, apesar de ser muito coerente com as questões históricas envolvidas.
Como sempre este tipo de texto suscita polêmica.
Desta vez apareceu na caixa de comentários o José Maurício Passos Nepomuceno, que pontuou dois aspectos do texto: a necessidade de se fazer diferença entre fundamentalismo e conservadorismo (o que eu concordo, mas vou deixar para tratar disso em outro texto), e a questão da inspiração das escrituras.
Ainda não descobri como linkar comentários no Amálgama, mas foi no comentário que postou dia 12 de março, às 6:49 da tarde, que, lá pelas tantas o José Maurício afirmou o seguinte:
“A inspiração das Escrituras
Esta tem haver principalmente com o “registro” do texto sagrado. Ou seja, Deus, por uma ação divina operada pelo seu espírito, conduziu homens, como a Bíblia diz “santos” (com um uso bastante técnico e não moral da palavra) com a finalidade de fazer conhecida sua doutrina, inspirando-os a registrar o que Ele quis, não eliminando a auto-consciência do autor humano, mas usando seu conhecimento pessoal, recursos intelectuais e outros elementos que os envolviam, CONTUDO (eis o ponto que creio divergiremos) preservando do registro que tais autores incluíssem no texto final (os autógrafos originais, diga-se de passagem) impressões, opiniões, doutrinas pessoais que Deus não quisesse que fizesse parte do mesmo. Isto implica em que, além de conter os vestígios claros da mente humana nos escritos bíblicos, podemos notar o seu DNA divino.” (grifos meus)
Não posso deixar de comentar isso aqui, porque é uma besteira bem grossa essa que ele falou. E nisso, apesar de se declarar conservador e não fundamentalista, ele está mais próximo dos fundamentalistas.
Não existe nada parecido com autor nas Escrituras Sagradas. O único que pode ser identificado como tal é Paulo, o apóstolo. E mesmo assim existe a complicação dos deutero-paulinos. Ou seja, nem todas as “cartas de Paulo” foram escritas por Paulo.
Isso tem a ver com o jeito como funciona este tipo de literatura antiga. A escrita era muito restrita neste mundo, e a circulação de texto em suporte material (pergaminho ou outro meio) também era muito restrita. O negócio era na base da tradição oral mesmo.
De modo que os textos não têm autor. Vão passando de boca-em-boca por séculos, mantendo uma fidelidade na essência, mas passando por grandes transformações textuais.
Tudo o que se chama de Antigo Testamento, por exemplo, não estava escrito em forma definitiva senão uns dois séculos antes de Cristo. E não existem “originais” de nada – só cópias. Bastante tardias, diga-se de passagem. A cópia completa mais antiga que se conhece é a chamada Bíblia Hebraica Stuttgartensia, do século X. Os manuscritos do mar morto, encontrados nas cavernas de Qumran, que são do primeiro século da Era Cristã, só possuem fragmentos do livro de Isaías (correção do André Tavares nos comentários: o livro inteiro de Isaías e fragmentos de outros livros).
O mesmo para o Novo Testamento. Os evangelhos são todos registro de tradição oral, e há consenso entre os estudiosos que os únicos escritos que podem ser datados seguramente no primeiro século são algumas cartas de Paulo, escritas provavelmente na década de 50 do século I. É o caso da carta de Romanos.
Quem tiver alguma dúvida sobre a precariedade da idéia de “originais” ou “autógrafos” vá a uma biblioteca de seminário ou faculdade teológica e consulte o verbete “Texto e versões” de O novo dicionário da Bíblia, da Edições Vida Nova (vol II, p. 1588). Certamente este dicionário não pode ser acusado de heterodoxo, entretanto, se alguém quiser estudar a sério o assunto (mesmo os conservadores e fundamentalistas que editaram o dicionário), não há como tapar o sol com a peneira.
De modo que a questão de “inspiração divina” se baseia em dados falseados e interpretações equivocadas. É preciso matizar bastante a questão – as Escrituras Sagradas são literatura antiga, não podem ser avaliadas pela lógica do copyright. Isso não invalida a religião, mas exige um bocado de sutileza na hora de transplantar as coisas de um século a outro…
Leia também:
Minha história com o cristianismo e a história do cristianismo
Da demonstratibilidade do teorema de pitágoras – sobre ciência e religião
E o outro texto do André Tadeu no Amálgama:








on Mar 17th, 2010 at 12:46 pm
André, e em relação ao Evangelho de Lucas? li alguns artigos e tbem tenho a impressão de que ele, parece que era médico, teria feito um belo trabalho de jornalismo, compilando todas as informações e redigindo o texto.
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andreegg Reply:
March 17th, 2010 at 11:20 pm
É um personagem razoavelmente conhecido, mas os autores sugerem datas que vão do ano 60 até o ano 150 para seus escritos (provavelmente foi autor do livro de Atos, também). Os livros que ele escreveu são baseados em tradição oral, de segunda, terceira ou até quarta mão.
O texto de Lucas até pode, mesmo, ter algo como um “autógrafo original”, mas não há certeza sobre isso.
Paul Johnson, História do Cristianismo, p. 33, coloca as cartas autênticas de Paulo (I Tessalonicenses, Romanos, I e II Corintios, Gálatas, Filipenses e Filmemon) como únicos documentos escritos objetivos entre as Escrituras Sagradas, sem tradição oral por trás ou grandes processos de edição posterior, e tendo sido postos em circulação em vida do autor.
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on Mar 18th, 2010 at 9:10 am
Oi André,
Tenho acompanhado com atenção e grande interesse seus textos sobre o cristianismo. Gostaria de felicitá-lo não apenas pelo excelente nível dos textos, mas também pela iniciativa de tratar do assunto. Faltam vozes como você e o André Tadeu na sociedade brasileira.
Seu texto “minha história com o cristianismo” guarda muitas semelhanças com a minha própria experiência, assim como a de minha família e amigos. Eu o transmiti a alguns amigos (batistas e presbiterianos) que também estão em busca de uma fé não fundamentalista.
Tenha certeza: você e o Tadeu não estão sozinhos. Vocês repercutem os dramas de milhares de jovens protestantes brasileiros, que repudiam visceralmente a asfixia do fundamentalismo em que foram criados, mas que desejam cultivar uma fé sincera e piedosa.
Pensei em um monte de coisas que quis comentar, mas que, por receio ou inibição, acabei por não comentar. Qualquer dia desses, escrevo-lhe um email pessoal, pedindo-lhe ajuda em alguns questionamentos que me assombram.
Até lá, sigo lendo-o com grande satisfação. Continue!
Abraço amigo
Lelec
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André Egg Reply:
March 18th, 2010 at 12:49 pm
Este tipo de testemunho que você dá aqui é muito importante.
Eu imagino que existe muitos que estão “como ovelhas sem pastor” na igreja de hoje. A instituição e seu clero não tem olhos para nós, apesar de estarmos em busca do cristianismo autêntico.
É o que percebo em cada texto teu, sobre os mais variados assuntos.
De modo que, quando alguém chega na caixa de comentários para dizer isso, é o que motiva a continuar escrevendo sobre o assunto. Sempre com medo de começar a levar pauladas dos falcões.
Abraço, meu amigo.
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on Mar 20th, 2010 at 4:20 pm
André, obrigado pela citação de meu humilde texto. Lelec, valeu pelo elogio.
André Tadeu de Oliveira
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andreegg Reply:
March 21st, 2010 at 11:21 pm
“Meu humilde texto” – blah…
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on Mar 22nd, 2010 at 9:54 am
Caro André,
Tudo bem? Gostaria de indicar alguma coisas aqui, se você me permite. Primeiro, Qumran não tem apenas fragmentos de Isaías. Ao contrário, Isaías encontrado nas cavernas está inteiro, praticamente sem variações em relação ao texto massorético (e pode ser visto no Museu do Livro, em Israel); e todos os livros do AT encontravam-se lá, com exceção de Ester, entre grandes fragmentos e fragmentos do tamanho necessário para serem processados e identificados.
A Stuttgartensia é uma versão crítica, construída a partir dos considerados melhores textos antigos, nem sempre os mais velhos, produzido pela Sociedade Bíblica Internacional. As versões mais antigas do AT hebraico, o TANACH, são mesmo do século X e XI, os manuscritos de Alepo e de Leningrado. Por outro lado, temos os Códices Sinaítico, Latino e Alexandrino, que discordam em algumas questões de formação canônica, mas são do século IV.
As polêmicas sobre os deutero-paulinos se devem mais a posições teológicas dos estudioso, que não conseguem encaixar aparentes contradições teológicas em diferentes cartas, concluindo que não podem ser do mesmo autor. Contudo, as aproximações de Paulo com o
farisaísmo e com as correntes judaicas do primeiro século vão demonstrando a razoabilidade do corpus paulino tal como conhecemos. O Serbon está certo, Lucas é propriamente a primeira vez que somos apresentados a alguma coisa como um autor, tanto pelo relato evangélico como de Atos, e é reconhecido como um modelo de historiografia e biografia autora.
Verdade que os textos do AT e os textos evangélicos de Mateus e Marcos são muito diferentes na composição daquilo que chamamos de autoria. Contudo, o próprio Paul Johnson, na sua História dos Judeus, aponta que mesmo no AT, temos a presença da noção de autoria: os apontamentos psicológicos, os perfis de personagens, as posturas em perspectiva, como no livro de Juízes e Reis, e a fixação nos dados históricos (não no sentido moderno-positivo do termo). A mera oralidade desaparece cedo em Israel, sobretudo com o fenômenos profético, com Estras e Neemias. E isto não é contradito pela edição que os textos sofreram pela comunidade.
É isso. Abraço.
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andreegg Reply:
March 22nd, 2010 at 11:17 am
Nada como alguém que entende do assunto.
Obrigado pelas informações, só espero que a profusão de “Andrés” não afete a compreensão do leitor, he,he.
E o que me diz das implicações em questão de inspiração? Curioso por tua opinião.
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on Mar 22nd, 2010 at 1:09 pm
Cara, eu não entendo do assunto, definitivamente ;P.
Eu creio na inspiração. Mas muito diferente do fundamentalismo. Fazendo uma caricatura grotesca, não há espaço para a inspiração à Chico Xavier, como uma psicografia. A inspiração é a própria convivência de um determinado seguimento da comunidade de Israel e da comunidade cristã com uma experiência da revelação transmitidos por uma tradição. A inspiração é a própria relação, e a condição canônica é a continuidade, fidelidade e coerência das adições ao que lhe é anterior, e ao momento em que vive. Portanto a inspiração deve “inspirar” a hermenêutica. Por isso discordo completamente da visão de algum protestantismo com o Textus Receptus, por exemplo; ou a sacralização dos erros ou a má leitura por desconhecimento do contexto e seus limites.
Veja bem, não estou longe de ser um libera, você sabe disso. A posição liberal que escarnece da tradição é uma besteira, mas isso é para outro lugar, com mais tempo. Sou partidário da noção que a inspiração está nessa ligação dos autores (sim, são muitos) e suas comunidades com Deus e sua Revelação. Pode não estar muito claro, mas é mais ou menos por aí que penso.
Abraço.
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André Egg Reply:
March 22nd, 2010 at 8:51 pm
Tudo bem,
minha tendência é pela mesma linha que você aponta. Quando me perguntam eu nunca sei definir muito bem o que eu creio – sei bem melhor o que eu não creio.
Só acho que o que pode existir de fé não está nos dogmas ou doutrinas, mas na comunidade de fé, e em sua tradição. Neste sentido só posso imaginar as escrituras como a narrativa desta comunidade de fé.
Mesmo Deus não sendo uma coisa demonstrável, ou apreensível pela mente humana racional (para todos os efeitos Ele não “existe”) – Ele é a própria manifestação que faz dele sua comunidade.
Sei lá, deve ser alguma coisa assim.
Agradeço as coisas que você apontou, corrigi no texto do post a questão dos manuscritos do mar morto.
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on Mar 29th, 2010 at 3:52 pm
Certo,
e se os dogmas e a formulação da doutrina forem o relato, o resultado sistematizado da experiência histórica de uma comunidade? Sabemos bem, eu e vc, o quanto outro olhar sobre o dogma que não este pode produzir de erro e injustiça. Concordo com vc que qualquer teologia deveria ser uma pistislogia, um estudo sobre a fé mais do que sobre Deus, sobre a experiência dos encontros entre Deus e uma comunidade ao longo da história. Tem um teólogo reformado, o Gordon Spykman que faz isso e propõe essa “mudança”. Eu só faria uma ressalva, para que eu mesmo não seja confundido, de que a ideia de narrativa que tenho está muito distante daquela dos liberais. Continuo crendo no “fato” narrado.
Abraço.
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andreegg Reply:
March 31st, 2010 at 10:32 am
Quando um cara como você vem dizer que acredita no “fato” narrado, me deixa muito com a pulga atrás da orelha. Porque não pode ser acusado de ignorância.
Eu não sei bem o que eu creio exatamente. Mas penso mais ou menos assim: tem coisa na doutrina que é especulação metafísica, não derivada diretamente da narrativa das escrituras, mas construção teórico-filosófica que eu classificaria de espúria, pelo menos em relação ao próprio canon definido pela ortodoxia.
Entrariam nesta categoria todas as doutrinas sobre a essência de Deus, seu caráter, sua vontade, seus “planos” e “propósitos”. E as previsões do futuro.
Também acho que tem muita coisa que não se pretende como “fato” narrado, caso da história da criação, nascimento virginal de Cristo e sua ressureição, além de muitos episódios menores.
Acho que sou liberal, não?
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