Ando usando postagens programadas para tentar dar uma certa regularidade a este blog, ainda mais que não sou de escrever sobre assuntos que envelhecem rápido.
Aconte que o último post que saiu aqui, sobre livro de papel e leitores digitais acabou envelhecendo rápido demais. Não pelo assunto, nem pelo texto. É que escrevi ele mais de uma semana antes, a partir de dois programas de TV citados lá.
E depois de ele ter saído na sexta feira, descobri uma discussão muito interessante num triunvirato de alguns dos melhores blogs em língua portuguesa.
O Rafael Galvão escreveu dois textos sobre a relação afetiva com o livro de papel e a possibilidade de migrar para um leitor digital. Os textos estão um aqui e outro aqui. O certo era eu comentar lá, mas a caixa de comentários já vai ficando grande demais e quero escrever demais, também. Aliás, os comentários e a discussão valem tanto quanto o post – como é de praxe nos grandes blogs.
O texto do Rafael, que levou à discussão toda, surgiu a partir de outro do Alex Castro – que deve ser a melhor explicação jamais existente de como funciona e pra que serve um Kindle. Tudo que o Alex escreveu me deu muita vontade de ter um, exceto por um fator – ainda está caro pra cacete: R$ 750,00 no Brasil. E a disponibilidade de títulos à venda só é atrante para quem lê em inglês.
O Hermenauta também entrou na discussão e abriu uma outra caixa de comentários muito interessante.
A questão principal nos debates do Rafael e do Hermê é se ler livro digital é mais legal que de papel. Qual é melhor, mais durável, etc.
De certa forma é mesmo uma discussão meio inútil. Como bem demonstra o texto do Alex Castro, leitores digitais tem funcionalidades e aplicabilidades muito específicas. Para alguém com as necessidades do Alex o Kindle é indispensável. Agora, ninguém perguntou lá pra ele (e eu sei qual seria a resposta) se ele vai deixar de ler e ter em casa livros de papel.
Uma coisa não substitui a outra, livro de papel vai existir sempre. Leitores digitais servirão para coisas mais efêmeras (ou não – o Alex lê e-books raros do século XIX no Kindle). Livros de papel continuarão sendo coisas para se guardar com carinho. Quase similares às diferenças entre Vinil e CD, ou entre CD e mp3.
Com diferenças muito substanciais nas comparações possíveis. A música continua sendo uma experiência única – alto-falantes, por melhores que sejam, nunca substituirão a experiência de ouvir música ao vivo. A facilidade com que se distribui e copia o mp3 hoje praticamente inviabiliza o fonograma como negócio, como atividade comercial. É preciso que se diga que foi isto que moveu toda a música do século XX. De modo que equacionar a questão dos direitos autorais pode definir muito sobre a música do século XXI e sua dinâmica.
Reitero o que disse no outro texto meu: acho que o tipo de tecnologia Kindle com preservação de direitos autorais pode ser útil para pensar um novo formato de música digital.
No Meio bit saiu um texto que alguém citou aí nas caixas de comentários mencionadas. É uma sugestão clara para não comprar o Kindle ou outro leitor, enquanto a tecnologia ainda é primitiva e cara. É uma afirmação que faz todo sentido para o mercado no Brasil, nenhum sentido para o mercado nos EUA. Aliás, a experiência toda que o Alex Castro narra lá no texto dele não é reprodutível no Brasil em quase nenhum aspecto. Esta comparação entre situação de mercado no Brasil e nos EUA também está no meu texto anterior.
Alguém também mencionou nas caixas de comentários citadas uma comparação com aparelhos celulares. O comentário tentava passar uma postura não-geek, argumantando que só comprou celular em 2001. Como se isso fosse tarde. Meu primeiro celular foi comprado em 2003. Era usado, paguei R$ 50,00. Servia para eu ser facilmente achado por minha esposa grávida em caso de emergência.
De lá pra cá já compei um outro bem bobinho por R$ 98,00 não me lembro em que ano. Até que ano passado migrei para planos de telefonia com conta (usava o pré-pago). Agora ganhei um brinquedinho que está longe de ser a última maravilha da tecnologia. Me saiu de graça (depende do ângulo de abordagem, afinal pago 60 paus por mês para a operadora), uso como câmera fotográfica, filmadora, agenda, calculadora, tocador de mp3, rádio e, imaginem vocês – até como telefone.
De modo que mesmo um cara totalmente não-geek como eu vai ser atingido por estas bugigangas eletrônicas num futuro próximo. E, acreditem, em pouco tempo não saberemos viver sem isso.
A outra questão debatida é sobre o espaço que ocupa uma biblioteca de papel. Também tenho esse problema. Casa de três quartos. Dois filhos ficam em um quarto para poder fazer no outro o escritório, que é basicamente uma mesa para ler e corrigir trabalhos de alunos, uma mesa para o computador e a impressora e estantes (4 no total) forradas de papéis (livros, apostilas, partituras, teses).
Se quero liberar espaço em casa? Certamente. Se vou deixar de ter livros de papel? Claro que não. Se um leitor digital será prático pra mim? Claro que sim.
Principalmente porque, como o Alex Castro, também corro os riscos de excesso de uso de internet. No caso dele, que chegou a comprar um laptop que usa desconectado só pra conseguir escrever, o Kindle teve como principal utilidade ler e-books que jamais leria no computador por causa da internet. Ou seja, para quem acha internet tão interessante que chega a se perder nela, é muito útil mesmo.
Mas, acho que ainda é o caso de esperar um pouco. Principalmente por que, mesmo que eu quisesse muito – não tenho de onde tirar 750 mangos agora…








on Jan 20th, 2010 at 5:09 pm
Isso aí, André, me senti como se fosse comigo o q vc falou sobre o assunto. Nunca vou deixar de ter alguns livros especiais, outros de consulta, mas o tecnológico um dia pega a gente. Parabéns.
Reply
on Jan 20th, 2010 at 5:10 pm
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