Submarino.com.br
Um drible nas certezas Rotating Header Image

Livro de papel versus leitores digitais

Esquenta o debate sobre o futuro do livro, a partir do surgimento, pra valer, de leitores digitais.

O primeiro a surgir, e que está motivando a celeuma toda, é o Kindle, leitor da Amazon, que está chegando ao Brasil. Há uma ótima discussão sobre ele neste programa da TV Cultura, mas quero dar meus pitacos.

Há enormes diferenças entre o mercado norte-americano e o brasileiro, e esta questão aparece no programa. Primeiro, como dito lá, o poder de vendas da Amazon é muito forte nos EUA. Então, se as editoras querem vender livros no site da Amazon, têm que vender também versões eletrônicas no Kindle.

Tá. Mas existem outras questões. O Kindle usa tecnologia sem fio já disseminada nos EUA, ou seja, você baixa os livros sem precisar conectar seu aparelho a nada. Isso é usado também para assinar jornais. Por tudo isso, já está adiantado nos EUA o processo de substituição de livros e jornais de papel pelo modelo eletrônico.

No Brasil o processo ainda nem começou. E não vai começar com o Kindle, por muitos motivos. Nos EUA o negócio todo derivou de um público massivo de internet banda larga existente há mais de 10 anos. No Brasil esse mercado ainda é muito restrito, e promete sofrer forte expansão na próxima década. Nos EUA o nível de escolaridade e a quantidade de leitores, livrarias e editoras de livro de papel já passou de seu pico. No Brasil esse pico ainda não foi atingido. Pelo espaço que ainda temos para formação de público leitor e aumento do poder aquisitivo da população, veremos o surgimento do livro eletrônico conviver com a ampliação do mercado do livro de papel, situação bem peculiar do nosso país, que os empresários norte-americanos ou europeus talvez não saberão como enfrentar.

Bem, mas o Kindle está apenas começando a chegar aqui, e não terá jamais a força toda que tem nos EUA, o que talvez atraia outros concorrentes de peso e faça do mercado brasileiro um interessante laboratório de desenvolvimento e teste de tecnologias.

No vídeo citado acima, lança-se uma espectativa quanto ao Tablet PC que deve surgir nos próximos anos. O que ajadaria a ampliar a convergência de tecnologias em um único dispositivo.

Eu apostaria mais num leitor digital próximo a um aparelho de telefonia móvel (que chamamos, esdruxulamente de celular) do que a um computador pessoal. Digamos que é mais provável que alguém como eu (ou o público médio não geek) use como leitor uma coisa derivada do iPhone quando isso tiver um preço assessível.

Outro dia um amigo estava me mostrando a tecnologia que a maplink já disponibiliza para estes aparelhos. Assesso um mapa, que localiza onde estou (por GPS), e me fornece listas de cinemas, pizzarias ou postos de combustíveis mais próximos. Prático, não? E se um aparelho assim funcionar como telefone, televisão, leitor digital, tocador de música, ponto de acesso a certos serviços da internet (especialmente e-mail, twitter, facebook)?

Aí entra uma outra questão fundamental, que são os direitos autorais e toda a cadeia produtiva do texto, que afinal já não vive só de papel faz muito tempo.

A grande sacada da Amazon, para fazer o Kindle viável nos EUA, foi o uso de uma tecnologia que preserva os direitos autorais. Faz isso ao não lançar o e-book na vala comum do arquivo copiável. O que impediria remunaração de autores e editoras. Livro comprado para Kindle só pode ser lido no Kindle. Não dá pra copiar nem intercambiar com PC, a não ser que você use um software recente para emular o leitor: o Kindle for PC.

Isso significa que o livro eletrônico pode remunerar o escritor e a editora. Se não for assim, não há mercado, ninguém escreve. Já tem gente se mobilizando no Brasil para aproveitar esse mercado que vai surgindo. E as limitações da indústria editorial nacional, totalmente incipiente em política de lançamentos, tiragens e possibilidades de remuneração de autores, só fazem aumentar as perspectivas do livro digital.

Imagine que você tem um bom livro na gaveta, e procura uma editora. Se você for um ninguém como eu, a chance de editar por alguma editora grande é zero. Você pode usar editoras que oferecem sistemas de “pague por sua edição”, mas os problemas para conseguir fazer seu livro chegar nas livrarias seriam terríveis. Agora você pode gastar bem menos e editar seu livro para Kindle. Por exemplo, R$ 900,00 + R$ 2,50 por página no serviço da Verdes Trigos. Sua remuneração como autor? 35% do valor de venda.

No livro de papel o autor recebe 10%. Do preço final, 30% fica para a livraria e 20% para o distribuidor. Com algumas variações possíveis nesses percentuais, todos os custos de edição e impressão, mais o lucro da editora precisam ser cobertos com 40% do valor de capa.

Por isso há muito espaço para o livro eletrônico crescer. Continuam existindo os custos de edição. Mas some o custo da impressão em papel, muito significativo para baixas tiragens como as que são regra no Brasil. Se eu fosse lançar um livro de umas 200 páginas sem fotos, talvez pudesse ser vendido por R$ 40,00, dos quais eu receberia R$ 4,00 como autor. Os mesmos R$ 4,00 eu receberia por exemplar de um livro eletrônico vendido a R$ 11,40.

Esse cálculo grosseiro demonstra o tamanho da possibilidade de ampliação de mercado a partir do livro eletrônico. Como as editoras tradicionais ainda estão presas ao modelito de lançar livros-de-papel-caros-a-baixas-tiragens, suspeito que os grandes players deste mercado ainda vão surgir. Tudo depende, claro, da possibilidade de criar um público capaz de ler livros nestes dispositivos.

E aí voltamos a outra questão.

O Kindle não terá no Brasil a prerrogativa de domínio de mercado que tem nos EUA. Então, o espaço para concorrentes é muito bom. A Gato sabido já está lançando o primeiro leitor brasileiro, como aparece neste programa da Globo News. Só que aqui são uns “velhos” discutindo numa livraria sobre se alguém vai se dispor ou não a ler livros em telas de aparelhos.

Não há dúvida que sim.

O que não acaba com o livro de papel, mas repete todas as histórias que já vimos acontecer. As tecnologias de impressão revolucionaram o texto escrito, o fonograma revolucionou o jeito de fazer música, a fotografia revolucionou a forma de pensar as artes visuais, o cinema transformou a ópera, o rádio revolucionou o concerto, a TV não acabou com o rádio, nem o VHS com o cinema, etc. etc. etc.

Para mim, a solução para o livro eletrônico poderia ajudar a resolver a questão dos formatos de música digital. Quem sabe não surge um leitor de livros digitais que também permita ouvir música, num formato que não seja o MP3 e não possa ser copiado. Faria mais sentido para a cadeia produtiva remunerada pela venda de músicas.

Aliás, o caso recente no Brasil é muito elucidativo. Apesar do MP3 estar aumentando pra valer justo agora, ao contrário de outros lugares do mundo a venda de CD’s aumentou no Brasil em 2008.

Share and Enjoy:
  • Facebook
  • del.icio.us
  • MySpace
  • Technorati
  • TwitThis
  • E-mail this story to a friend!
  • Google
  • LinkedIn

6 Comentários on “Livro de papel versus leitores digitais”

  1. #1 Twitter Trackbacks for Livro de papel versus leitores digitais | Um drible nas certezas [opsblog.org] on Topsy.com
    on Jan 16th, 2010 at 1:54 am

    [...] Livro de papel versus leitores digitais | Um drible nas certezas andreegg.opsblog.org/2010/01/15/livro-de-papel-versus-leitores-digitais – view page – cached O futuro do Kindle no Brasil, as possibilidade do livro digital e o fim do livro de papel. [...]

  2. #2 Livro de papel versus leitores digitais « Verdes Trigos
    on Jan 16th, 2010 at 11:53 am

    [...] de papel versus leitores digitais Jan 15th, 2010 by andreegg. Esquenta o debate sobre o futuro do livro, a partir do surgimento, pra valer, de leitores [...]

  3. #3 Mais sobre Kindle versus livro de papel – Um drible nas certezas
    on Jan 18th, 2010 at 5:05 pm

    [...] que o último post que saiu aqui, sobre livro de papel e leitores digitais acabou envelhecendo rápido demais. Não pelo assunto, nem pelo texto. É que escrevi ele mais de [...]

  4. #4 Sinira Damaso Ribas
    on Jan 27th, 2010 at 7:36 pm

    Como faço para editar um livro através da Amazon?
    SiniraDRibas

    Reply

    andreegg Reply:

    Eu que não sei.

    Mas se você seguir o link lá para o Verdes Trigos, eles oferecem o serviço, pelo preço indicado.

    Na verdade a Amazon não edita, só vende…

    Reply

  5. #5 Mais lidos em janeiro | Um drible nas certezas
    on Feb 4th, 2010 at 9:06 am

    [...] 5° – Livro de papel versus leitores digitais [...]

Deixe um comentário