Cadillac Records

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Está nas locadoras. E dá pra comprar (DVD por R$ 35,20 e Blu-Ray por R$ 167,10)

E é um ótimo filme, especialmente para quem gosta de música e está interessado em alguns aspectos históricos, como eu.

O filme é uma história da Chess Records, gravadora de Chicago especializada em Rithm & Blues e uma das responsáveis por lançar o que os norte-americanos pensam que é o Rock and Roll.

A partir do sucesso de Chuck Berry em 1954, a gravadora ganhou repercussão nacional. Junto com a Atlantic e a Imperial, foi responsável por atender um mercado que as grandes (RCA, Columbia, Decca, Paramount e Capitol) não queriam – fosse por moralismo (a música era grosseiramente erótica) fosse por racismo. As pequenas foram as primeiras a dar protagonismo a artistas negros, e as grandes passaram muito tempo usufruindo do mercado da nova música por covers feitos por cantores brancos bem comportados como Pat Boone.

A história da gravadora é contada a partir de dois personagens principais. Leonard Chess, o judeu polonês que trocou o ramo do ferro-velho pelo da música na esperança de poder andar de Cadillac. E Muddy Waters, o meeiro do Mississipi que despertou para as possibilidades de sua música quando o etnomusicólogo Allan Lomax gravou suas canções para uma coleção de Folk Music da Library of Congress.

Lomax estava à procura de Robert Johnson, que tinha a reputação de ser o melhor bluesman existente. Como estivese morto, Lomax teve de gravar o que era considerado o 2° melhor. Muddy Waters migra para Chicago e é descoberto e gravado por Leonard Chess. Seu sucesso é o impulso inicial da gravadora, que contará com outros nomes importantes em seu cast: Little Walter, Chuck Berry, Howling Wolf e Etta James são os que aparecem no filme, além de Willie Dixon, o contrabaixista e letrista que foi responsável por várias das canções de sucesso, e que terminou por comprar o lendário prédio da 2120 South Michigan Avenue (que virou título de canção dos Rolling Stones) e transformar em fundação.

Em 1969, por dificuldades financeiras, a gravadora foi vendida, e seu catálogo pertence hoje à Universal.

O filme foi escrito e dirigido por Darnell Martin, uma cineasta afro-americana nascida no Bronx, em 1964. Depois de cursar a Escola de Cinema da Universidade de Nova York, atuou como atriz e assistente de câmera, até começar a dirigir os próprios curtas. Nas últimas duas décadas atuou comercialmente como diretora de episódios de séries de TV, como Law and Order. Continuou fazendo filmes mais autorais e documentários onde a questão central é o conflito racial.

Tornou-se a primeira mulher afro-americana a dirigir para um grande estúdio, com I like it like that (não sei se saiu no Brasil, nem com qual título) para a Columbia Pictures.

Justamente por causa de uma direção assim, o filme privilegia o aspecto do conflito racial.

As tragédias pessoais dos músicos negros, sua inabilidade para lidar com o dinheiro, a facilidade de serem “passados para trás”, recebendo Cadillacs ao invés dos direitos autorais em dinheiro, a violência policial, a segregação nos shows, etc.

No fim, me parece que a sociedade norte-americana teve muito mais dificuldade em lidar com esse conservadorismo no momento de maior crescimento econômico do país, quando ele liderava o mundo e tornava-se a única grande potência geo-política. Só na decadente Grã-Bretanha, sombra do outrora glorioso império, jovens proletários poderiam ouvir o Rithm and Blues e o “Chacoalha e balança” (Rock and Roll) dos negros norte-americanos, e transformar no que foi o Rock: uma música capaz de destruir o imaginário burguês e criar um novo mundo, para o bem e para o mal. Foi o que fizeram Stones, Beatles e The Who.

Veja o trailler do filme:

E não deixe de ler o texto que te fará entender o significado do Rock para o mundo, lá no A terceira margem do Sena.

P.S. Como avisou nos comentários, o Lelec também tem um texto muito interessante sobre um show do Chuck Berry.

Author: andreegg

Músico, historiador, professor.

10 Comments

  1. EXCELENTE filme! Talvez o melhor que vi em 2009. (Falo mais no sentido do GOSTO DE ASSISTIR do que por parâmetros dos especialistas em cinema, que não tenho nenhuma obrigação de ser…)

    (Quanto ao outro assunto… volto a ele em breve – quem sabe já amanhã. Você com certeza entende que é um assunto complicado, deve-se evitar entrar de corpo inteiro, parece provocar febres cerebrais…)

  2. Salve, André!

    Ainda não vi o filme, mas vou procurar assisti-lo tão breve quanto possível.

    “Good morning, England”, também de 2009, é um ótimo filme para quem curte o gênero.

    Muito obrigado pela honrosa citação do meu texto.

    É interessante como a questão racial teve particular importância na explosão do rock nos EUA. Embora negros já fizessem algo que poderia ser chamado de rock (ou rockabilly), o gênero só foi abraçado pela juventude quando um cara bonito, sensual, carismático e com vozeirão de negro cantador de gospel começou a seduzir moçoilas: era Elvis. Por isso, John Lennon, mais tarde, diria que, quando Elvis surgiu, “o Messias chegara”. Afinal, toda uma geração de jovens brancos que queriam fazer aquela música de negro tinham a sua referência branca.

    Ah! Vi um show de Chuck Berry há cerca de dois anos. Foi sensacional. O relato está aqui:

    http://aterceiramargemdosena.opsblog.org/2007/11/27/um-homem-sua-guitarra-seu-tempo/

    Abraço!

    • Anotadas as dicas.

      A turnê do Chuck Berry chegou a Curitiba também, mas na época não me chamou a atenção.

      Curioso que ele continua a cantar as mesmas músicas de 1955-56!

      Comentei lá no teu post, apesar de ser um comentário tão tardio, não resisti. Ainda vou escrever sobre o Chuck Berry, acho ele um personagem muito interessante dessa história toda.

      Um abraço,

  3. André adorei a dica, não sabia sobre o filme, mas será com certeza minha próxima aquisição. Gostaria de saber se você tem alguma dica de leitura ou filme sobre a gravadora Motown.

  4. Olá André ! Cheguei ao seu comentário pelo Café História ! Concordo com você, é um grande filme ! Para algo no cinema sobre a “Motown” vale a pena ver “Dreamgirls” que é um excelente musical adaptado da história da gravadora. Em ambos os filmes, cabe destacar, a meu ver, a participação ativa como atriz e produtora da Beyoncé que muitos pensam que se trata apenas de um corpo sem cabeça, mas não é…em Cadillac Records além do filme, vale destacar a maravilhosa trilha sonora! Um abraço !

    • Ricardo,

      obrigado pela visita e pela dica do filme, vou anotar e procurar na locadora.

      Também achei excelente a atuação da Beyoncé, e confesso que nunca tinha atentado para o trabalho dela. Não conheço suas músicas, mas fiquei curioso depois de ver o filme.

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