
Depois de sair ruidosamente da OSESP, Neschling já está engajado em um novo projeto.
Antes de mais nada quero deixar claro que não vou levar em consideração para este texto a possibilidade de que ele seja um regente tirano, uma pessoa difícil ou um mau músico. Informações como estas circulam à boca pequena no meio musical brasileiro, que tende a privilegiar a inveja e as intrigas ao invés das realizações musicais.
Sou dos que acham que a OSESP só fez bem à cultura brasileira, instalou um novo padrão de referência e uma saudável competição, que está levando outras cidades e estados do Brasil a tentar fazer alguma coisa notável só para não ficar atrás. Obviamente, a OSESP tal como é hoje – uma orquestra minimamente decente com boa programação musical – era coisa que simplesmente não existia no Brasil. E não teria existido sem alguém com as habilidades políticas de um Neschling.
As mesmas habilidades políticas estão novamente em uso para montar uma coisa que o Brasil não tem há já uns bons 140 anos. Uma Companhia de Ópera. A notícia está mais do que explicada nas entrevistas com o maestro, realizadas por um canal de TV e repercutidas no site do MINC, principal apoiador da iniciativa.
A coisa é tão óbvia que beira o ridículo um país como o Brasil não ter se mobilizado para fazer isso. Empregos de alta qualificação para cantores, instrumentistas, regentes, preparadores vocais, cenaristas, figurinistas, etc, etc, etc. Grande potencial educativo. Incrível repercussão cultural. A ópera foi no século XIX o que o futebol e o cinema representaram para a cultura do século XX. Nada justifica que seja abandonada. Aliás, na Europa até as cidades do interior costumam ter sua Companhia de Ópera (inclusive é lá que estão trabalhando os melhores cantores brasileiros).
Sabe-se que o modernismo nacionalista foi um movimento importantíssimo, capaz de criar uma escola de composição onde figuram um Villa-Lobos, um Mignone, um Guarnieri. Críticos musicais, musicólogos, historiadores do naipe de um Mário de Andrade, um Luis Heitor, um Andrade Muricy. O que o modernismo não logrou foi construir um sistema minimamente eficiente de ensino musical (não venha com o canto orfeônico da SEMA dirigida por Villa-Lobos: é assunto para outro texto), orquestras, companhias de balé e de ópera. Que vivem à míngua no Brasil.
Esta inexistência causa o paradoxo de que o repertório da música brasileira modernista, uma das melhores coisas que aconteceram na música do século XX, está mofando nos arquivos pessoais dos compositores. A maior parte obras que nunca foram tocadas, ou foram tocadas pouquíssimas vezes. Ou, para o caso de um Villa-Lobos que se tornou um nome mundialmente conhecido, muito mais executadas na Europa e EUA do que no Brasil.
O que me faz voltar ao título do post.
E pensar que a ópera chegou no Brasil como um divertimento requintado. Sabe-se que a Vila-Rica capital do ouro tinha uma casa para estes espetáculos. E que toda a música litúrgica do chamado “barroco mineiro” era estilisticamente influenciada pela mais moderna ópera napolitana da época.
E que a ópera era a parte mais importante da sociabilidade que veio com a corte portuguesa em 1808. O Rio de Janeiro tornou-se a cidade de um dos mais importantes operistas de então - Marcos Portugal. Foram executadas aqui também as últimas novidades vindas da Europa, como o Barbeiro de Sevilha de Rossini, que será a primeira montagem da Companhia do Neschling.
Companhias italianas faziam temporadas cariocas (porque era caminho para também realizar temporadas em Montevidéo e Buenos Aires, centros musicais mais importantes). Os grandes solistas europeus estavam na mira do público que vivia de puxar o saco da família real.
Até que no fim da década de 1850 o Brasil viveu a experiência de ter uma companhia de ópera. A única que já tivemos. Durou pouco mais de meia década.
O suficiente para gerar um Carlos Gomes.
Sim. Ele veio jovem de Campinas, com boa formação com música de salão - quadrilhas e valsas, além de modinhas, e música de banda (que aprendeu com o pai).
Mas foi na Companhia de Ópera Nacional que teve a experiência necessária para tornar-se o grande operista que foi. Nos dois anos que ficou no Rio de Janeiro, Carlos Gomes trabalhou como regente, ensaiador e fazendo transcrições. Além de compor suas duas primeiras óperas: A noite do castelo e Joana de Flandres.
Saiu para Milão com o Guarani na bagagem.
Aprendeu pouca coisa lá com o Lauro Rossi, só para tirar o diploma que lhe permitiria o exercício da atividade musical na terra que inventou o bel-canto.
Era para voltar ao Brasil, como parte da política do império, para formar as elites culturais que colocariam o Brasil na civilização.
Por acidente, Il Guarany foi um estouro em 1870. Gomes ficou rico. Foi apontado como sucessor de Verdi. Construiu uma mansão nos arredores e teve uma década frutífera no Scala. Depois veio a derrocada.
Mas foi o suficiente para que ele seja considerado um nome importante da ópera, e o principal compositor das Américas do século XIX. O herói do Brasil de então.
Tudo porque o império julgava importante que um país decente tivesse instituições que o representassem perante a civilização. O Conservatório Imperial (onde Carlos Gomes estudou) e a Ópera Nacional se prestavam a isso (e também o Museu Imperial, a Academia de Belas Artes, o Instituo Histórico e Geográfico, etc, etc).
A Ópera foi uma experiência efêmera. Serviu mais às aventura do empresário exilado José Amat e para divulgar zarzuelas e operetas traduzidas. Se em poucos anos ajudou a produzir um Carlos Gomes, imagine o que não seria do nosso meio musical se estivéssemos agora, ao invés de ouvindo a notícia da abertura de uma companhia mais do que necessária, comemorando cento-e-quarenta-e-tantos anos da Companhia de Ópera Nacional.







0 Comments on “A Companhia de Ópera do Neschling e a ópera no Brasil”
Leave a Comment