Está em curso um falso debate no Brasil.
A discussão é se o Brasil é ou não um país racista.
Porque a discussão começou? Bem, eu diria que até pouco tempo atrás todo mundo sabia que somos um país muito racista. Ninguém se incomodava, e ninguém fazia nada quanto a isso.
Tempos pra cá coisas estão mudando nesse brasilzão véio sem porteira.
E acontece que a turma que estava satisfeita com tudo do jeito que estava, está reclamando pra burro. Por exemplo, já ouviu alguém reclamar do Bolsa Família? Pois é. Benefícios do Estado só pra classes médias urbanas (carteira assinada, aposentadoria do INSS, Universidades Públicas, rodovias federais, etc.). Para pobres não pode. Esse não é o assunto sobre o qual estou falando, mas em todo caso não custa dar uma olhada na análise do NPTO sobre alguns sofismas que circulam a respeito.
Então.
Temos um presidente operário (nordestino e sem um dedo), para horror de certos brasileiros que se orgulhavam da pureza racial de seus governantes anteriores. Eleito por um partido dos trabalhadores. Acontece que este governo tem políticas (muito tímidas, é verdade) de combate à pobreza - o maior problema estrutural do Brasil. Quem não concorda em atacar este problema são os que obviamente não sofrem com ele.
Bem.
Além disso, este governo começou a mexer com umas coisas também na questão das desiguladades raciais. Medida dos primeiros dias de governo, criou uma Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, com status de ministério. O atual ministro é o Sr. Edson Santos, cuja foto ilustra este post.
Outra política, esta não diretamente emanada do executivo federal, foi o início da implantação de cotas para negros nas universidades públicas brasileiras.
Aí a coisa pegou fogo.
Acabou a reserva de mercado que guardava 100% das vagas (na universidade e nas carreiras mais dinâmicas do mercado de trabalho) para brancos bem-nascidos. Quem se beneficiava da reserva está chiando.
E, não por coincidência, dois senhores comçaram uma campanha sórdida. Eles têm nome, mas isso praticamente não importa porque representam opiniões que não são deles. São de seus patrões e dos grupos políticos (leitores inclusos) que sustentam os grupos de mídia que pagam seus salários.
Esta campanha quer fazer crer que não existe racismo no Brasil.
Não vou nem falar mais nada, que já tem muita gente escrevendo sobre este assunto, coisas muito boas aliás. Por exemplo, o Alex Castro:
O baralho que herdamos dos nossos antepassados já está viciado para beneficiar sempre um tipo específico de jogador. Não basta somente que nós, os jogadores beneficiados, simplesmente não trapaceemos. É necessário trocar de baralho.
Por isso, nos meus textos, ao invés de ficar denunciando o racismo ou o machismo dessa ou daquela pessoa, eu tento expor as falhas e as rachaduras dessa estrutura como um todo. (O texto de onde saiu isso está aqui.)
Já concordando com a abordagem dele, fico feliz que ele seja uma pessoa capaz de dedicar tempo para desmontar esta argumentação mentirosa que se propõe a informar que somos o país das maravilhas e não se precisa fazer nada sobre a questão. Ele faz isso numa das mais importantes seções do seu ótimo blog. Obrigatório para ficar minimamente informado sobre o assunto. Ele também se deu ao trabalho de ler e criticar este livro e este livro. Aos quais certamente há um antídoto.
Também já me posicionei sobre esta polêmica aqui e aqui. Mas me chamou a atenção o depoimento de uma militante do movimento negro que foi ao lançamento de um dos livros que tentam negar o racismo brasileiro (obviamente o preconceito de que esta pessoa é vítima é uma coisa inventada, visto que o autor do livro nunca sentiu esse preconceito). Está aqui no blog da Maria Frô, que é historiadora estudiosa da cultura negra. Tem lá mais uma resposta do movimento negro.
Por causa disso tudo, fica ainda mais importante acompanhar o documentário que a TV Brasil está veiculando: Nova África. Ajuda a entender de onde viemos, e pensar que Brasil queremos ser.






on Oct 31st, 2009 at 7:58 am
Oi André,
Desculpe-me pela demora em lhe render visita aqui no seu ótimo blog.
E desculpe-me por já chegar com uma divergência.
É claro que existe racismo no Brasil. Um racismo diferente daquele existente nos EUA ou aqui na França, mas racismo assim mesmo, tão odioso quanto todos os outros.
Mas não acho que as cotas sejam uma boa idéia.
Fazer o negro entrar na universidade pelo alçapão dos fundos é uma armadilha. Na primeira divergência em um trabalho de grupo, um imbecil “branquinho” vai soltar “fique na sua, cara, eu passei no vestibular porque estudei e sou inteligente, você está aqui por causa da cor da pele”.
Tive alguns colegas negros na minha turma de medicina na UFMG – certamente menos do que haveria se a composição da sala de aula refletisse exatamente a distribuição étnica brasileira. Mas os poucos negros da minha turma entraram pela porta da frente. Discutiam de igual para igual com todo mundo. Foram bons alunos, entraram em concorridas residências e um deles, brilhante, foi fazer pós-doutorado em uma universidade dos EUA. Hoje, ele é professor da UFMG.
Tenho um conhecido que diz que, há alguns anos, ele não tinha problema algum em se consultar com um médico negro (concordo: não são muitos, mas eles existem). Desde as cotas, contudo, ele o está evitando. Como saber se o cara entrou porque passou no vestibular ou pela cor da pele?
Por essas e outras, existem várias associações ligadas ao movimento negro que são enfaticamente contra o regime de cotas raciais.
Por outro lado, creio que há que se estabelecer “cotas” para pessoas segundo o nível sócio-econômico. Acho que seria justo e não entraríamos na distinção racialista oficializada pelo Estado o que, a meu ver, é nociva.
Abraço,
Léo
PS: Escrevi sobre o assunto em dois textos:
http://aterceiramargemdosena.opsblog.org/2009/02/06/qual-sua-origem-hipocrisia/
http://aterceiramargemdosena.opsblog.org/2009/02/10/ainda-o-racismo-a-latrina-moral/
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andreegg Reply:
October 31st, 2009 at 1:20 pm
Leonardo,
seja sempre bem-vindo, especialmente para discordar. É disso que se fazem blogs.
As tuas colocações merecem um outro post, de tão importantes. Mas já vou rascunhando umas idéias aqui na caixa de comentários mesmo.
Percebo que você não nega que o Brasil seja racista, acho que não está no time do Magnoli e do Kamel, portanto.
Mas o que é entrar “pela porta da frente”? Alguma alusão ao fato de que os negros normalmente não podem usar os mesmos acessos que os brancos? Se o negro entrar pela política de cotas ele não pode “discutir de igual para igual”? Porque você acha uma coisa tão especial um negro discutir de igual para igual com um branco?
Seu conhecido está achando uma desculpa para dar vazos a uma atitude racista.
Tudo o que se mediu até agora diz que o desempenho dos cotistas não é pior do que os não cotistas na universidade. O que leva a questionar o mito de que quem passa num vestibular concorrido será melhor médico do que um sujeito que não passou naquele vestibular. É uma péssima maneira de medir mérito, mesmo porque tá cheio de gente com mérito que tem que para pelo caminho por absoluta falta de oportunidade.
Concordo que as cotas são ruins. Espero que chegue o dia em que não precisemos mais delas. São uma medida temporária para compensar a sistemática negação de oportunidades a diversos setores. Especialmente os negros.
O Estado não oficializa a distinção racialista. As pessoas são discriminadas pela cor da pele (pergunte ao seu colega professor se as chances dele ser preso ou espancado pela polícia não são muito maiores do as de seus colegas brancos de universidade) - o Estado está propondo uma compensação. Ademais, se algum negro não concorda ou se sente mal com as cotas, pode não optar por elas. Visto que não há forma de medir a negritude, e o candidato se inscreve nas cotas por declaração.
Vou ler os teus textos lá, e voltar à questão num outro post, que acho muito importante essa discussão.
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on Oct 31st, 2009 at 8:56 am
GOLAÇO, André!!
Não só pelo conteúdo “opiniático”, mas também pelo capricho em linkar tudo, o que faz da sua postagem uma espécie de centro sináptico a respeito.
Correndo agora, espero voltar a conversar com você sobre o tema!
Abraço forte
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andreegg Reply:
October 31st, 2009 at 1:22 pm
Ralf, obrigado pela visita.
Termina a correrria aí e volta para comentar aqui que o assunto merece muito debate, especialmente de alguém capacitado como você.
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on Oct 31st, 2009 at 4:05 pm
Oi André,
Muito obrigado pela gentileza em responder aos meus comentários.
É claro que defendo que negros devam ter acesso aos mesmíssimos serviços que brancos. O que eu quis dizer com “entrar pela porta da frente” é aceder à universidade pelo seu próprio mérito e não por uma medida que não pressupõe o mérito. É exatamente por isso que há negros contra as cotas. É o caso, por exemplo, do Movimento Negro Socialista:
http://www.marxist.com/brasil-esquerda-marxista-movimento-negro-socialista.htm
Não creio, assim, que a frase do meu conhecido seja uma justificação para o racismo, pois existem negros que pensam assim também. Aliás, há muitos negros que se opõem às cotas. Porque existe nelas um pressuposto implícito: a de que negros só podem competir com brancos em pé de igualdade em um concurso intelectual se tiverem uma ajudinha. Não! Negros e brancos são igualmente capazes!
Quando acontece o debate intelectual – e a universidade é esse espaço por excelência – os melhores argumentos vêem de quem é intelectualmente mais preparado, de que é mais dotado de inteligência. Não vem de quem tem uma cor de pele em particular. Se alguém participa dele sem ser suficientemente preparado, ele não pode discutir de “igual para igual”. Eu, por exemplo, não posso discutir música com você “de igual para igual”, pois você está muito melhor preparado que eu, é muito mais talentoso do que eu (nota: sou um péssimo violonista, sem o menor senso rítmico). Para se alcançar a excelência, há que se premiar quem é o melhor, e não quem tem um dado traço físico. Isso não tem a ver com cor da pele. Tem a ver com capacidade intelectual.
Quanto ao argumento de que o “desempenho dos cotistas não é pior do que os não cotistas na universidade”, poderia me passar as referências, por favor?
Até onde sei, as medidas são recentes e seus efeitos ainda não puderam ser avaliados com distanciamento. Gostaria, por exemplo, de comparar o desempenho em concursos de residência médica de alunos que entraram pelas cotas e de outros que não se beneficiaram delas.
Quanto à discriminação racista feita por policiais, ela existe sim. E existe no shopping, na seleção de emprego e em tantos outros lugares. Mas o jeito de resolver isso não é criando cotas na universidade. Se a polícia discrimina, que se puna severa e exemplarmente o policial. Que se treine a polícia. A excelência da universidade não pode ser comprometida por um erro boçal cometido por seres boçais, tais quais policiais racistas.
Você mesmo falou que não há como medir a negritude. Como então, o sistema de cotas pode ser justo ? Qualquer um pode pleitear o fato de ser negro. E a decisão pode ser qualquer uma. Por isso, defendo que existam cotas por critérios econômicos ou que se dêem créditos a quem estudou a vida toda em escola pública. São coisas mensuráveis e que concorreriam para maior justiça social e para maior inclusão de negros e índios na sociedade, dando-lhes oportunidades de acenderem socialmente.
Abraço
Léo
PS1: Não vou discutir o mérito do vestibular, que é mesmo cheio de falhas. E concordo que não necessariamente ele seleciona os melhores. Mas ele tem virtudes: é meritocrático e é objetivamente mensurável, coisa que as cotas raciais não são.
PS2: Não deixe de ler, por favor, o seguinte texto de Hélio Schwartsman, com quem concordo bastante nesse assunto:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/helioschwartsman/ult510u404203.shtml
[Reply]
andreegg Reply:
October 31st, 2009 at 7:00 pm
Léo,
eu ainda não fui conferir o link do movimento negro socialista, nem o outro texto que você indicou, mas imagino que o movimento é contra por achar que é uma medida paliativa, e não estrutural. Não resolve o problema. E isso acho mesmo. Como qualquer medida reformista e não revolucionária.
Quanto a punir o policial racista, o buraco é mais embaixo. Nisso concordo muito com o Alex Castro, que citei ali em cima, o racismo é estrutural, e não uma coisa de um ou outro bossal.
Vou mesmo procurar informação fundamentada sobre o desempenho dos cotistas, que tudo que li foi meio diz-que-me-diz, referindo-se ao desempenho acadêmico dos cotistas dentro do curso. Isso eu posso testemunhar porque sou professor universitário.
Sobre a questão do mérito, é preciso perceber que um negro que passou no vestibular de medicina teve que demonstrar mérito muitíssimo maior que qualquer branco.
Meus filhos estudam na melhor escola de Curitiba (porque minha esposa é professora lá, que eu não posso pagar). Das mas de 200 crianças da educação infantil só tem um negro. Aqueles brancos todos vão estudar lá até o fim do ensino médio, e vão escolher depois onde fazer a universidade. Os mais aplicados nos cursos mais concorridos de medicina ou direito. Os mais tranqüilos escolherão outros. Todos eles tem emprego garantido nessa vida, não por mérito, mas pelas relações sociais dos pais. Se o cara não prestar pra nada, sempre pode conseguir emprego nas empresas dos amigos do pai. O negro não tem nada disso.
Não há igualdade possível para medir mérito nessas condições.
E as cotas não negam o mérito, visto que o cotista presta vestibular também.
As cotas para estudante de escola pública são melhores, também acho. Mas não resolvem o problema de que as melhores escolas públicas ficam nos melhores bairros ou fazem exames de seleção. Também são de difícil acesso para negros, geralmente servem a setores da classe média branca.
Vou ler tuas indicações, estou preparando um post novo sobre o assunto.
Mais uma vez obrigado pelo debate aqui, muito me orgulha.
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andreegg Reply:
October 31st, 2009 at 7:02 pm
P.S. - mesmo quem toca mal violão pode ter opiniões ótimas sobre o assunto. Cê não sabe como tem violonista bom que fala merda sobre música.
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on Oct 31st, 2009 at 7:49 pm
Pois é, André - o melhor é que esse será um trabalho de parceria do começo ao fim (ah, a criatividade dos processos caóticos: as tentativas intencionais de parceria dificilmente funcionam tão bem).
Pois foi um dos links do SEU post que me fez encontrar esse cartum (ou coisa que o valha): http://www.interney.net/blogs/lll/?cat=2280 . Só que ali está não só em inglês como principalmente em tamanho muito pequeno; exige ESFORÇO para penetrar, e isso é mortal na comunicação dos dias de hoje (pelo menos na de primeiro contato). (Para alguma coisa teriam que servir meus meses de “serviço militar” como publicitário, né?)
Enfim, vi o título no link acima, resolvi procurar se encontrava na net em tamanho maior, encontrei, traduzi - e taí agora uma ferramenta a mais para nossas brigas.
Mas eu não conhecia o blog em questão, e não teria chegado nele sem a sua parcela inicial!
Abraços!
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on Oct 31st, 2009 at 9:17 pm
PS: (1) Ao colega leocruzsouza, gostaria de dizer que me parece estranho só considerar honroso que um negro entre na universidade “pelo próprio esforço”, quando esse NÃO é o caso de grande parte dos brancos que entram.
Para entender essas coisas é indispensável apossar-se do conceito de Pierre Bourdieu de CAPITAL CULTURAL e CAPITAL SOCIAL. Sugiro o fascículo “Bourdieu pensa a Educação”, publicado há uns dois anos nas séries da Duetto, é uma excelente introdução. Eu mesmo sou um exemplo disso: cresci com uma biblioteca em casa, com pai e mãe ex-professores, pai médico… pode-se considerar mérito meu que eu tivesse muito mais facilidade que os colegas que nunca tinham visto um livro até entrar na escola? Sempre fui extremamente preguiçoso frente aos deveres escolares, e via com perturbação colegas IMENSAMENTE mais esforçados tirarem notas mais baixas que eu, e eu ser paparicado pelos professores pelo que havia meramente HERDADO e não realizado. (No meu caso isso pelo menos serviu de motivação para passar a trabalhar com jovens de favelas, mais tarde. Mas infelizmente a maior parte dos colegas de classe média ou alta apenas tiram proveito próprio dessas vantagens, não buscam socializá-las).
(2) Quanto aos quadrinhos esclarecedores, André, tenho a impressão de que seu autor pode ter se inspirado na fantástica frase de Tolstói: “Monto nas costas de um homem, sufocando-o e fazendo que me carregue, e no entanto garanto a mim mesmo e aos outros que sinto muito por ele e desejo aliviar sua sorte por todos os meios possíveis - exceto descer das suas costas.” Abçs
[Reply]
on Oct 31st, 2009 at 11:00 pm
Ao Ralf:
Em que lugar eu disse que só considero honroso o negro que entra na universidade pelo próprio esforço?
Eu só considero honroso quem entra na universidade pelo próprio esforço. E isso vale para brancos, pardos, azuis e negros.
Se alguém acessa à universidade sem ter estudado e sem ser capaz, essa pessoa não é honrada. Isso vale para pessoas de todas as cores.
[Reply]
Ralf Rickli Reply:
November 7th, 2009 at 4:18 pm
ESSA definição é radical, hem, Leo!… Por essa sua definição RARÍSSIMAS pessoas das classes altas (média alta para cima) são honradas.
O que talvez seja a mais pura verdade, mas eu não teria ousado colocar uma carta tão radical nesta discussão.
E aí as coisas invertem mais uma vez: que direito temos de exigir ou mesmo esperar dos oprimidos que se pautem por padrões ACIMA do que os opressores foram capazes de se pautar ao longo de toda sua história?
Pois NUNCA houve acúmulo de riqueza sem algum tipo de ação desonrosa em algum ponto do processo…
[Reply]
on Oct 31st, 2009 at 11:02 pm
Oi André…
Por favor, não deixe de ler o texto do Hélio Schwartsman. Ele traz argumentos realmente muito bons contra as cotas.
Minha discussão com você, veja bem, não é se existe ou não preconceito racial no Brasil. Estamos de acordo que sim, que ele existe. Estamos absolutamente de acordo que o Brasil não é uma democracia racial. E estamos de acordo que esse problema precisa ser atacado com medidas efetivas.
No que diz respeito ao Movimento Socialista Negro, a oposição às cotas não é por serem elas paliativas. É por serem elas racialmente discriminatórias, por serem intrinsecamente injustas. Leia o link que lhe passei e você verá.
Não se resolve uma injustiça com outra injustiça.
Veja isso que você escreveu, sobre os brancos:
“Todos eles têm emprego garantido nessa vida, não por mérito, mas pelas relações sociais dos pais. Se o cara não prestar pra nada, sempre pode conseguir emprego nas empresas dos amigos do pai. O negro não tem nada disso.”
Esse discurso parece não considerar o esforço hercúleo que jovens “brancos” de classe média têm que fazer para passar em vestibulares concorridos, para “se darem bem” na vida. Na minha turma da UFMG, posso lhe garantir sobre os alunos: a minoria tinha pais proprietários de empresas que poderiam abrigar os filhos em caso de derrota no vestibular. Muitos alunos “brancos” tiveram que batalhar pra caramba para estarem ali: prestaram vestibular várias vezes, nem tentavam nas privadas (porque não tinham condições mesmo), davam aulas em cursinhos para se manterem, vinham da periferia. Entraram porque foram capazes.
Um aluno branco não tem a vida fácil só porque é branco ou o pai é empresário. Se ele quiser estudar no ITA, nada disso adianta se ele não estudar muito e se não for bastante inteligente.
É indecente e tremendamente injusto que um negro inteligente e capaz não possa ter acesso a um ensino superior de qualidade, em que seu potencial seja valorizado e em que ele tenha chance de aflorar. Mas é injusto punir a priori o jovem branco que se matou de estudar e que não é diretamente responsável pela injustiça que sofre o negro.
É injusto também que eu não tenha pago pelo meu ensino superior. Minha família tinha condições para tanto. Sou a favor que alunos de universidades públicas paguem mensalidades quando vierem de famílias abastadas. Isso seria uma maneira de mitigar a perversão do sistema universitário brasileiro: os mais ricos não pagam, enquanto os mais pobres pagam.
Mas não se pode acabar com a meritocracia como critério de seleção. Isso seria acabar de vez com a universidade pública brasileira.
Concordo que o aluno que veio da escola pública tem menos recursos que o aluno da escola privada para disputar em pé de igualdade o vestibular. Por isso, sou plenamente a favor de cotas que considerem o fator financeiro. Assim, incontornavelmente beneficiaríamos negros e índios, que figuram entre os mais pobres. Mas estabelecer um critério racial é errado, mesmo porque ninguém consegue definir o que seja raça – nem mesmo a genética. O que se vê, então, são medidas arbitrárias que necessariamente incorrem em injustiças. Veja o caso dos gêmeos da UnB.
Por fim, sua referência à escola dos seus filhos, a meu ver, não tem lugar: o estabelecimento é privado e a condição sine qua non para estar ali é dispor de recursos. No caso da universidade, estamos falando de uma instituição pública, cujo processo de seleção se dá por concurso público em que os candidatos com melhores notas entram. O critério não é financeiro.
É isso.
Abraço
[Reply]
on Oct 31st, 2009 at 11:14 pm
Na internet, sempre se corre o risco de ser mal interpretado.
E, nessa discussão sobre cotas, quem se posiciona contra as mesmas sempre se expõe ao risco de ser chamado de racista, ainda que muitos negros sejam contra as cotas.
Minha oposição às cotas não é por querer preservar um “status quo que me favorece” ou coisa que o valha.
Minha oposição é porque elas são intrisecamente injustas. E porque não há raças humanas.
Quanto ao comentário do Ralf, posso dizer que também já trabalhei como voluntário em favelas e periferias muito pobres de Belo Horizonte, porque também me preocupo em “socializar vantagens”.
E já me meti em boas brigas na internet por ser contra o racismo contra negros e nordestinos.
Eis aqui os links que mostram essas brigas:
http://aterceiramargemdosena.opsblog.org/2009/02/10/ainda-o-racismo-a-latrina-moral/
http://aterceiramargemdosena.opsblog.org/2008/05/07/entre-o-berimbau-e-o-estetoscopio/
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andreegg Reply:
November 1st, 2009 at 8:13 am
Espero que não tenha ficado parecendo que achei você racista, não foi minha intenção em nenhum momento. Sei que estamos discutindo qual a melhor política para resolver a situação que se apresenta no Brasil.
No comentário acima você afirma que não se pode acabar com a meritocracia como critério de seleção, pois isso acabaria com a universidade brasileira.
Quanto a isso te digo que as cotas não acabam com a meritocracia. Você mesmo defende as cotas para escola pública, não?
Trabalhei algumas vezes na coordenação do vestibular na faculdade em que leciono (FAP), e posso te garantir que os alunos com melhores notas no vestibular não são os melhores do curso. Não posso generalizar esta experiência, porque um vestibular de medicina é muito diferente de um de música e de artes.
Mas volto a insistir que um negro que passa pelo sistema de cotas está simplesmente tendo a mesma chance de demonstrar mérito que um branco que não teve as cotas.
O exemplo que dei da escola dos meus filhos é para ilustrar que os melhores colégios estão franqueados a quem tem dinheiro para pagar. Os negros, via de regra não têm. Não é por falta de mérito. É porque o Brasil teve uma coisa chamada escravidão. Já tem mais de 100 que fizemos a abolição e não incluímos os negros plenamente na nossa sociedade. Se não usamos políticas compensatórias, talvez a situação ideal que você imagina (brancos e negros disputando espaço de igual para igual com base exclusiva no mérito) só chegue por volta de 2735.
No fim das contas, acho que só estamos nessa discussão porque você passou no vestibular de medicina. O que distorce um bocado tua percepção do ensino superior em geral. Além de ser um vestibular disputadíssimo, existe a questão do risco da formação de um mau médico, que vai ter vidas humanas em suas mãos. Você deve saber melhor do que eu que os caras que demonstraram esse mérito todo não andam fazendo muito boa medicina por aí, pelo menos a maioria deles.
Isso é opinião completamente não fundamentada, mas suponho que um negro que entrou pelo sistema de cotas tenderia a levar muito mais a sério a profissão de médico do que a maioria dos brancos.
Inclusive, como o racismo daquele teu conhecido demonstra, a luta por reconhecimento não termina quando passa no vestibular - acompanhará o negro pela vida profissional toda.
As cotas têm, inclusive, esta função pedagógica: obrigar a sociedade a lidar com a presença dos negros nos lugares onde eles nunca entraram. Num primeiro momento aumenta o conflito racial, como aconteceu nos EUA nos anos 1970.
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on Nov 1st, 2009 at 8:27 am
Lelec,
fui lá conferir o movimento negro socialista.
É bem o que eu te falei. Parece com a tua argumentação. Eles são contra porque acham paliativo, e esperam que a solução do problema negro virá pela implantação efetiva do socialismo. Veja o trecho em que menciona as cotas raciais:
…
“Mas, a partir do momento em que colocamos a raça como algo basilar, uma linha definidora de direitos e deveres para um povo, arriscamos muito. A Esquerda e todas as lutas populares do últimos séculos beberam do sumo da igualdade jurídica dos cidadãos.
Se a República, no modo de produção em que vivemos hoje, não conseguiu cumprir esse papel por meio de políticas universalistas, foi porque a política universalista aplicada pelo Estado nunca foi até o fim. Nunca conseguimos discutir e desenvolver uma política econômica que favorecesse fundamentalmente os investimentos sociais, que rompesse com a lógica do capital financeiro internacional e nacional.
Temos de continuar esse combate. Temos de observar aqueles que querem chegar a uma sociedade justa, igualitária e fraterna - o que para mim é uma sociedade socialista - , na qual os grandes meios de produção são controlados democraticamente por todo o povo. ”
…
Na minha opinião é um erro de estratégia política. Eles não percebem que a revolução é uma coisa virtualmente inatingível, que o capitalismo vai muito bem obrigado e que precisamos fazer alguma coisa aqui e agora, enquanto a sonhada igualdade social não chega.
Eles também citam os casos das cotas nos EUA e na Índia, numa avaliação bem geral, sem fundamentação. Dizem que as cotas foram implantadas e as desigualdades continuam. Eu acho que sim, porque continua um sistema econômico fundado nas desigualdades, o que volta à questão de se é melhor esperar a implantação do socialismo para resolver o problema do negro.
Concordo com eles no sentido de que precisamos chegar a uma organização social onde todos sejam iguais, tenham as mesmas oportunidades, os mesmos direitos fundamentais.
A divergência minha com eles (e com você também) é o que fazer antes de chegarmos nesse ideal.
Você mora no país que conseguiu resolver isso melhor, com escola pública de excelência para todos, o que virtualmente elimina as desigualdades para todos os cidadãos franceses. Concordo que este é o ideal a ser atingido no Brasil. Mas note que a França não teve escravidão africana - é uma situação deveras diferente.
[Reply]
on Nov 1st, 2009 at 8:40 am
E o texto do Schwartzmann termina assim:
…
“No fundo, não adiro com entusiasmo à idéia de cotas raciais porque faço uma apreciação pouco otimista da natureza humana. (…) “Alguns problemas não têm solução.”
…
Ele faz uma argumentação razoável, mas entrega o ouro no final: não adianta políticas compensatórias, porque o ser humano é instrinsicamente mau e continuará racista. Percebe-se neste fatalismo a pesada carga de ser um ashkenaz, grupo humano cuja história não permite muitos otimismos.
Eu já penso o contrário. Os ashkenazim são o melhor exemplo de que o mérito não é suficiente para driblar o preconceito, pois não conseguiam ser aceitos na Europa nem quando negavam sua ancestralidade judaica e tentavam viver como assimilados. E olha que eles eram sempre os melhores nas comparações de mérito.
Sou otimista, acho que os problemas podem ter solução (ou não) - dependendo da nossa luta.
[Reply]
on Nov 1st, 2009 at 10:56 am
“No fim das contas, acho que só estamos nessa discussão porque você passou no vestibular de medicina.”
Ah, André, aí não, né ?
Não subestime meus argumentos. Não acho que exista só a medicina. Minha irmã é engenheira, minha esposa é advogada e minha mãe é formada em filosofia. E considero que o que vale para um curso vale para o outro como critério meritocrático.
Hélio S. não “entrega o ouro” no final. O que ele diz, e você entendeu bem, é que há razões neurobiológicas para a existência do racismo. E que racismo sempre existirá, por mais que lutemos. Isso não significa que não devamos lutar contra – o próprio articulista advoga o critério sócio-econômico.
Além de se pautarem em um critério biologicamente impossível de definir – as raças humanas – as cotas ainda têm um problema: e os brancos pobres ? Não tem cotas para eles ? É justo que um negro que estudou em boa escola privada (existem poucos, mas existem) se beneficie das cotas?
As cotas por critérios financeiros têm o mérito de não beneficiarem nenhuma raça a priori – se o cara foi verde, azul, roxo, e se vier de uma família pobre e se tiver notas excelentes no sistema público, ele teria créditos.
Quanto ao Movimento Negro Socialista, leia aqui a carta aberta que a coordenação do movimento entregou a parlamentares brasileiros e você verá que eles rejeitam as cotas por considerá-la racista:
“Nós militantes negros, militantes anti-racistas, alertamos para a gravidade da aprovação do projeto de lei 73/99 por votação simbólica na Câmara dos Deputados no último dia 20 de novembro. A aprovação destas leis pode dividir a nação e provocar uma catástrofe racista no Brasil.”
http://www.adital.com.br/Site/noticia.asp?lang=PT&cod=36525
Abraço
Léo
[Reply]
andreegg Reply:
November 2nd, 2009 at 8:00 am
Mas Léo, as universidades também têm cotas para alunos de escolas públicas. E são muito boas, funcionam. Porque você não está questionando o efeito nocivo que elas têm para a meritocracia?
Sobre a inexistência biológica das raças, isso é real. Mas você devia ler o argumento do Kabengele Munaga que eu reproduzi aqui: http://paginadecultura.blogspot.com/2009/07/uma-resposta-bem-educada-ao-demetrio.html
E o Schwartzman é cheio de sofismas, mas vou escrever sobre isso num outro post…
[Reply]
leocruzsouza Reply:
November 2nd, 2009 at 10:34 am
“as universidades também têm cotas para alunos de escolas públicas. E são muito boas, funcionam. Porque você não está questionando o efeito nocivo que elas têm para a meritocracia?”
Porque o óbice da minha argumentação é a distinção racialista embutida nas cotas raciais. Esse é, para mim, o grande perigo da proposta. E é isso também que argumenta o Movimento Negro Socialista, como você bem viu.
Abraço
Léo
[Reply]
andreegg Reply:
November 3rd, 2009 at 7:22 am
Mas a defesa das cotas sociais invalida o argumento da meritocracia contra as cotas raciais.
Resta o da distinção racialista, que é mesmo uma questão importante.
Abraço,
on Nov 2nd, 2009 at 2:07 am
Andre queria debater sobre o tema da escravidão. Na verdade estou prescisando desenvolver sobre o tema,queria uma opinião sua sobre :Na senzala uma flor do Slenes.Atrevo a isso devido a sua ótima resenha plubicado no antigo blog seu…Na verdade as questões são mais complexas que a tese do Slenes ,por isso queria o seu email para de mandar as questões para que vc pudesse contribuir contra minhas dúvidas.
Entre em contato comigo :
afsturtdasilva@yahoo.com.br
Ou deixe seu email que entro em contato contigo.
ABS!
[Reply]
andreegg Reply:
November 2nd, 2009 at 8:02 am
Te passei lá o e-mail, mas não sei se posso ajudar alguma coisa. Fiz a resenha do livro, mas receio que está lá tudo que sei sobre a escravidão…
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on Nov 6th, 2009 at 5:04 am
Oi André,
Desculpe-me pela demora em voltar aqui. A semana está sendo apertada.
Você tem razão: as cotas sociais são uma agressão à meritocracia. Eu as aceito apenas pelo princípio da eqüidade, que, na minha maneira de ver o problema, deve-se sobrepor à igualdade.
Mas continuo sendo contra as cotas raciais por “raça” ser um critério imensurável (diferentemente do nível de renda) e, principalmente, porque as cotas introduzem uma discriminação racialista que é nociva e monstruosa. E, como você leu, lá na carta aberta do Movimento Socialista Negro, há muitos negros que concordam comigo.
Sobre as cotas raciais, enfim, pode-se usar a frase com que você conclui seu texto mais recente (ainda não o li com calma): “dois erros somados não resultam num acerto.”
Deixo aqui o link para o hit “Alma não tem cor”, do Karnak, na voz do Zeca Baleiro.
Os versos dizem:
“Alma não tem cor
Porque eu sou branco
Alma não tem cor
Porque eu sou negro
Branquinho, neguinho
Branco, negon
Alma não tem cor”
Abraço!
http://www.youtube.com/watch?v=6PJAIrMhvCM&feature=related
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andreegg Reply:
November 7th, 2009 at 9:01 am
Lelec,
tem pressa de voltar não. É assunto pra discutir com calma mesmo.
Meritocracia está fora de questão então.
Resta o teu argumento da racialização. Ele é um sofisma, por que imagina que as cotas introduzem a racialização. A racialização já está aí faz muito tempo, as cotas pretendem ser apenas um antídoto temporário.
Volta lá no texto do Schwartzman para ver o que ele fala sobre o viés estatístico contra os negros.
Também é sofisma o argumento de que não se pode definir quem é negro. Não se pode definir biologicamente ou genéticamente, ou “científicamente” - como preferir.
Mas quando digo que policiais sabem escolher negros para dar geral, não estou sugerindo que se monte uma comissão de policiais para decidir quem é negro no vestibular, como graceja o Schwartzman lá no texto dele. O policial não é um agente isolado a manifestar truculência e preconceito de sua própria pessoa. São agentes públicos aplicando exatamente a política de segurança que nós definimos como sociedade: proteger a propriedade, e não a vida. Alguma coincidência faz que a propriedade no Brasil esteja toda na mão dos brancos?
Continuo insistindo para você ler o Kabengele, que tem um argumento interessante sobre a inexistência biológica de raça.
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Ralf Rickli Reply:
November 7th, 2009 at 4:29 pm
Alma TEM cor sim, meu querido!!!
O problema é quando as cores são usadas para discriminar no sentido negativo. Quando sabemos aceitar a variação que as cores representam como um dado positivo, é EXCELENTE que existam enorme diferença de cores!!
Ouço o piano de Nina Simone tocando peças inspiradas em Bach com swing inegavelmente negro, e o que ela está fazendo se não projetar uma diferente coloração DE ORIGEM ÉTNICA sobre uma linguagem de origem branca? GRANDIOSA alma branca que gerou os corais de Bach, GRANDIOSA alma negra que gerou o swing de Nina Simone ou da divina kora (harpa africana) de Toumani Diabaté - NADA MENORES.
Que me desculpe Chico César, um mundo sem cores seria um saco - tanto no mundo físico quanto no mundo das almas, e tanto as cores das demais origens quanto as cores de origem étnica SIM.
(Obs.: tudo o que eu falo de MÚSICA valeria para qualquer outro campo da cultura, inclusive o erótico, que é um campo da cultura SIM, e não da biologia. E eu NÃO estou falando a partir de esterótipos (preconceitos) e sim de experiência própria…
)
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on Jan 2nd, 2010 at 10:06 am
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